terça-feira, 2 de abril de 2013

FERNANDO PESSOA: O EXCESSO DE SER


FERNANDO PESSOA: O EXCESSO DE SER

 

Marco Aurélio Baggio

 

Já se sabe tudo sobre a vida multifacetada de Fernando Pessoa. Sua obra vem sendo coligida por uma plêiade de aficcionados: os pessoanos. Consta ter deixado cerca de 27.000 documentos, encontrados num baú, após sua morte.            

Não foi Fernando Pessoa um homem feliz. No entanto, é um homem realizado.

         Ele encarnou o melhor do espírito português, aquele do descobrimento de mundos, implantando o fogo e a luz de uma civilização.

         Fernando Pessoa foi um ser que deu abrigo à coexistência de múltiplos seres. E o fez por excesso de talento e acendrada curiosidade.

 “Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, aparte isso e até em contradição com isso, muitas outras coisas.”

 Poeta? Sim. Poeta maior da exuberante e resistente língua portuguesa. Poesia como bom manejo da língua, numa busca interminável de descobertas e ocultações, de revelações luminosas e apreensão de obscuridades constituintes, de constatação de certezas provisórias e de dúvidas instigantes, numa complexa espiral ascendente em que o sentimento e a linguagem reciprocamente se enlaçam, desvelam-se e se encobrem, no espaço variegado de nossas indefinições.

  “Um fingimento deveras.”

         “Música que se faz com idéias.”

         Mas não apenas – Fernando Pessoa foi o publicitário: “-Coca-cola: Primeiro estranha-se; depois, entranha-se.”

 Foi o operoso catalogador de um seu invento: “Anuário ou indicador sintético, por nomes e outras quaisquer classificações, consultável em qualquer língua”, registrado como patente sua, com vistas a obter polpudos rendimentos.

         Fracassado em conseguir negócio próprio, viveu modestamente dos proventos de “correspondente estrangeiro” das melhores casas comerciais de Lisboa. Fez opção pela discreta e quase pobre vida, o que não lhe permitiu  ser capaz de sustentar uma mulher – “boquinha doce” Ofélia Queiroz – nem fazer imprimir livros em vida. Pobre. Decente. Sem mágoas, Fernando optou por manter sua liberdade de agente criador, desbravador de um mundo que começara a falir com o entrechoque dos imperialismos da eficiência, na Primeira Grande Guerra.

         Fernando equipou suas naus. E as enviou em todas as direções, cônscio da precisão que é explorar mares por navegação.

         Principiou escrevendo boa poesia em inglês, sua segunda língua natal, sob o nome de um suposto Alexander Search, ainda na África do Sul.

         Depois, revisitando Lisboa, optou por usar a língua portuguesa como meio, veículo e nau, para bordejar os novos mundos que se dispunham à cobiça de sua curiosidade infantil. Sim, porque Fernando Pessoa, mercê talvez de suas vicissitudes relacionais familiares, manteve-se como feliz criança, ávida de brincar com o mundo.

         “Se eu morrer muito novo, ouçam isto:

         Nunca fui senão uma criança que brincava.”

ou ainda:

         “É-se sempre criança.”

         “O melhor do mundo são as crianças.”

         Sua curiosidade aliou-se a uma peculiar e exacerbada sensibilidade, que o manteve em estágio de larva-ninfa-pupa – jamais inseto pleno voador, experimentando uma pluralidade de sensações, de pensamentos, de figurações, de estados de alma e de vivências que o tornaram o ser único na história da literatura e na psicologia das gentes.

         Para começar, Fernando Pessoa jamais foi psicótico. Também não foi homossexual. Sua latente homossexualidade, insinuada por alguns, como Ferreira Gullar, não é maior nem muito menos motivadora que aquela que cada um de nós, homens, carrega em seu bojo.

         Não. Fernando Pessoa viveu com uma raiz merencória a morte do pai por tuberculose, quanto tinha seis anos, o decaimento econômico conseqüente, o casamento da mãe com o comandante João Miguel Rosa, designado cônsul em África.         A ida para as antípodas do mundo, Durban, cidadezinha nascendo na África do Sul, o choque cultural: clima, cores, comida, língua, o nascimento sucessivo dos irmãos tiveram influência em sua obra.

É provável que esses fatos tenham interrompido o doce livre fluir da infância paradisíaca do menino Fernando. Disso, ele se queixava. Da nostalgia da infância, perdida, do desafeto da mãe que nunca o amou suficientemente. Os seres humanos são bebês chorões em pura carência. Fernando então se retraiu. Em termos. Mas Durban deu-lhe quatro caminhos: ser bom aluno, ler boa literatura inglesa -  As aventuras de Mr. Pickwick. “O sr. Pickwick pertence às figuras sagradas da história do mundo” – e corresponder com um amigo imaginário – ele mesmo. A descoberta do mundo novo da poesia – Alexander Search – abriu-lhe uma poderosa via expressiva,  por onde escoou, genialmente, toda sua ampla subjetividade.

         Fernando Pessoa definiu-se como um histérico. Mais precisamente, um hístero-neurastênico, como se dizia na época.

         Conhecia a obra de Freud, pela qual não manifestou particular apreço.

         Pois bem! Foi um histérico. Sabemos hoje que histeria é raiz constitucional psíquica que urde e tece em torno do vazio decorrente da falta do contato humano caloroso e farto, criando uma construção imaginária, de subjetividade ansiosa de aparecer e de seduzir. Toda vez que nos expressamos, fazemo-lo por imperativo de nossos traços histéricos. Fernando Pessoa soube usar e escandir sua histeria para fins literários. Neurastênico – fraco de nervos, nervoso, hipersensível, irritadiço e retraído, também o foi. Neurastenia hoje é  considerada uma forma de distimia ou depressão menor. Fundo depressivo. Traços melancólicos. Claro: Fernando Pessoa, como qualquer homem civilizado, acossado pelo absurdo da existência e perseguido pelos minúsculos revezes do cotidiano, foi portador de uma depressão de fundo, que utilizou como verruma de introspecção para erigir sua obra.

         Tendo mamado o leite da bondade humana, em posição serena, até os seis anos de idade, Fernando Pessoa viu cortado abruptamente seu suprimento de harmoniosa composição de vida. Tornou-se nostálgico de um tempo bom, outrora havido e desfrutado.

“No tempo em festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

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Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

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Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...”

 Eis a raiz de seu messianismo posterior: viver pode vir a ser uma procura constante de resgate de um tempo feliz que passou, passou. Vive-se então para, de alguma forma, tentar restaurá-lo.

         “ - Sou a criança triste em quem a vida bateu.”

         Fernando Pessoa era, isto sim, um esquizóide.

    “Quer pouco: terás tudo.

     Quer nada: serás livre.

         O mesmo amor que tenham

         Por nós, quer-nos, oprime-nos.”

         Homem civilizado, educado, de fino trato, bem-humorado, arguto e inteligente, assim se dispunha para aquele tantos poucos com os quais convivia: o leiteiro, o barbeiro, sua irmã, sua sobrinha, os agentes comerciais, o chefe, o patrão, os donos dos bares e, sobretudo, os contertúlios das Arcádias e das revistas literárias.

Não é a carga psicopatológica que alguém carrega algo capaz de gerar obra de arte, mas sim o montante do talento de que o artista é dotado. Isso, acrescido do empenho e da dedicação dele ao trabalho.

         No entanto, Fernando Pessoa era retraído de um contato humano mais efusivo, era discreto e sem envolvimentos pessoais, tímido mesmo em seu desempenho social e evitadiço de compromissos afetivos heterocompartidos. Consta que teve um arrebatamento e uma paixão, uma única vez, por Ofélia Queiroz, em 1920. Quatro fatores operaram contra esse amor:  primeiro, o fato de não ter renda para sustentar uma mulher, a não ser que se dispusesse a trabalhar mais; segundo, o haver percebido que, quem nos ama, de nós sente-se dono, e ele não estava disposto a se privar de sua liberdade; terceiro, sua própria natureza esquizóide, de pessoa que teme e foge desse amor; e, por fim, o fato de que, por decurso de prazo,  a paixão se extinguiu, espontaneamente, meses depois.

         “Queriam-me casado, fútil, quotidiano, tributável?

         Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa!

         Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

         Assim como sou, tenham paciência!

         Vão para o diabo sem mim,

         ou deixem-me ir sozinho para o diabo!”

         Não teve assim o privilégio de conviver com uma vida familiar, afetiva, calorosa, sexualizada, heterocompartida.

         “E como é branca de graça a paisagem que não sei

         vista de trás da vidraça do lar que não terei.”

         Capitão de longo curso, Fernando Pessoa escolheu o rumo e dele não se afastou.

          “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais a obediência de Mestres que permitem nem perdoam.”

         Pagar o preço do gênio.

“Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

         Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la

         penso. Só quero torná-la grande, ainda que para

         isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a

         lenha desse fogo.

         Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que

         para isso tenha de a perder como minha.

         Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da   humanidade.”

         Viveu só e assim foi perdendo lentamente as vias de inserção e de sustentação humanas, que o levaram ao tabagismo e ao alcoolismo que o mataram aos 46 anos. Fernando foi um solitário. Mas não se queixou.

         Tinha uma insaciável curiosidade de conhecer tudo. Meteu-se a estudar profundamente toda a tradição ocultista e esotérica do Ocidente: cabala, hermetismo, astrologia, maçonaria, metafísica, paganismo, mediunidade, gnose, teosofia e horóscopo, os templários e os rosa-cruzes. Rafael Baldaya – astrólogo – foi seu criado na empreitada.

         “... e há em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente.”

         Tinha forte bagagem filosófica, conhecia profundamente o humanismo da antigüidade clássica grega e romana. Versado na história de Portugal, cedo percebeu o valor cultural que a pequenina nação portuguesa ofereceu à Europa e ao mundo, no tempo dos descobrimentos.

         “A Europa quer donos! O mundo quer a Europa!

         Mas eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos

         do que descobrir um Novo Mundo!”

         Conhecedor da literatura universal, sofreu influência de epígonos ingleses, franceses e de Walt Whitman.

         Mas cedo ainda, ao criar sua obra, Fernando Pessoa despiu-se das ansiedades da influência e tornou-se, apenas e perfeitamente, português.

         Alberto Caeiro, mestre, surgiu assim, “puro”, isento de influências. Português: pequenino, mas valoroso; de início, decadente, para, a seguir, tornar-se moderno, depois abrangente, visionário, sebastianista, utópico, missionário e universal. Assim hoje, de pleno direito, vem sendo reconhecido e considerado.

         Acossado pela mesquinharia do cotidiano, sabedor, mediante horóscopo próprio, por ele elaborado, de que sua vida se extinguiria, figura pouco relevante numa sociedade ultraconservadora, Fernando Pessoa foi, a seu modo, um homem de ação. Intrometeu-se no ideário político português com um pertinência absolutamente contemporânea e uma audácia que só espíritos libertos detêm.

         “À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, “O interregno” e “Como organizar Portugal” e textos para dirigentes de empresas, páginas de doutrina estética e de teoria e crítica literárias são exemplos de sua participação operosa.

         Fernando Pessoa já era excelente poeta quando, um dia, seu lado feminino e sua histeria deram à luz um mestre, o poeta maior Alberto Caeiro. Desdobrado de si, num interessante fenômeno criativo de desdobramento de consciência, Fernando Pessoa começou a “diversificar-se” em poetas. Em 8 de março de 1914, esse jovem empresário de “eus” trouxe ao mundo os heterônimos que vieram dar estofo aos demais setenta e dois personagens que convocou para participarem do “teatro íntimo do eu”

         Caeiro resgata a pureza da sensação:

         “Cada coisa o é por ser.”

         Mais tarde, o poeta clássico latino virá à tona com o heterônimo Ricardo Reis. Reis prega o homem indiferente diante do arbítrio e do poder dos deuses, do destino inelutável e da morte. Pratica uma poética e uma estética próprias da antigüidade clássica. Mantém um pensamento alto, com inflexões filosóficas estóicas e epicuristas, expressando-se num português erudito. “A vida é para ser vivida sem desassossegos grandes.”

         “Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

         E deseja o destino que deseja

         Nem cumpre o que deseja

         Nem deseja o que cumpre...”

         “Cumpramos o que somos

         Nada mais nos é dado.”

         Em seguida, o poeta sensacionista contemporâneo da modernidade, o futurista Álvaro de Campos, veio à vida como um núcleo de energia para explodir em impulsividade, emoção e arte. É o que se nota em “Tabacaria”:

         “Escravos cardíacos das estrelas,

         Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

         Mas acordamos e ele é opaco,

         Levantamo-nos e ele é alheio,

         Saímos de casa e ele é a terra inteira,

         Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.”

  A admiração do engenheiro pelo avanço da civilização mecânica e pelo desenvolvimento tecnológico transparece na “Ode Triunfal”:

“Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”

 

         O que se vê é uma fecunda dissociação do eu, dando origem a personas que expressarão o talento múltiplo e variado do poeta. Algo nunca visto em toda a literatura mundial. Sui generis: um autor ter seu ego convertido em legião. Uma única pessoa criar, simultaneamente, a obra plena de quatro grandes poetas, com características e estilos próprios. Os heterônimos são o cenário mais conhecido e mais visitado de todo o parque temático que é a obra de Fernando Pessoa.

         Nela não nos deteremos por já estar sobejamente mapeada por fernandinos e pessoanos de maior embocadura.

         Infeliz e inquieto homem de seu tempo, sensitivo e participante, cheio de arestas e de susceptibilidades, personalidade esquizóide típica, que não abrandou mediante aconchego no colo macio de sua amada amante mulher, Fernando Pessoa deu vazão a sua inquietude naquilo que hoje fulgura como um tratado de vivências neuróticas humanas, como o magnífico “Livro do Desassossego”. Aí, nessa “obra doentia”, foi jogando no baú folhas e anotações esparsas, a maioria sinaladas apenas “L. do D”. Em boa hora vem à luz, nesse fevereiro de 1999, a edição completa e cuidadosa do “Livro do Desassossego”, pela Companhia das Letras.

         Que dizer então do “drama em gente” que viveu à custa da própria carne? No “Teatro do ser” que montou, o poeta colocou em cena, no palco, seu ortônimo, seus heterônimos e suas personalidades literárias em desempenho e movimento, onde a ficção e a realidade se confundem. Cada um, uma pessoa. Uma persona. Uma máscara. Uma personalidade. Uma pessoalidade, com vida e modo próprio de ser, de existir e de se expressar.

         Multidão de egos. Polipeiro de imagens. Vespeiro de contradições. Enxame de personalidades. Cachão de concepções. Homem de cultura. Cidadão de seu tempo. Sabedor do gênio que em si abrigava. Poço de contradições. Definia a si mesmo como sendo o próprio paradoxo: “O paradoxo sou eu.”

         Fernando Pessoa é o mais espetacular exemplo da multiplicidade de pessoas que em nós habita. Sua obra é a explicitação mais bem acabada de como um potente psiquismo pode dar voz, ordem e vazão a cada uma delas, sem endoidecer. Desmisturadamente.

         Como psiquiatra, orgulho-me de reconhecer na pessoa Fernando Pessoa o exemplo digno de alguém que soube superar inferioridade e transmutá-la em noção depurada de humanidade... Artista. Pesquisador. Estudioso. Neopagão. Civilizador. Grande homem. Niilista existencial, Fernando Pessoa é um portentoso precursor poético daquele movimento filosófico que tomou de assalto os meios parisienses do pós-guerra: o existencialismo. Pessoa é um existencialista pleno avant la lettre. Em poemas como “Tabacaria”, “Apostila”, “Adiamento”, “Aniversário”, ele revela a própria consciência infeliz do homem moderno.

         Devo confessar: era, até a semana passada, um singelo leitor de Fernando Pessoa. De “Tabacaria”, “Poema em linha reta”, “Autopsicografia”, “Mar Portuguez”, “Psiquetipia”, “Eros e Psique”, e alguma pouca coisa mais. Era, portanto, era um pessoano iniciante, de reles qualidade.

         Viver é atrever-se.

         O Cônsul-Geral de Portugal em Belo Horizonte, Dr. Silvino Ferreira Leite, viu-me discorrendo sobre “Tabacaria”, em julho passado, no extinto Programa Psi, que mantinha no Canal 30. Em sua sensibilidade de autêntico  português e com a generosidade de sua fineza de trato, convidou-me a sua casa e encomendou-me uma conferência a ser feita nesta IX Semana da Cultura Luso-Brasileira, o que muito me honrou.

         Acedi. Nos resquícios de meus antepassados que geraram minh’alma portuguesa, adoro navegar desafios. O importante é buscar. O encontrar não é preciso.

         Pois bem! Diante de meus cotidianos afazeres comezinhos, propus-me a encontrar tempo para entrar em relação com o máximo de Fernando Pessoa: sua obra erigida a todos os custos. Reservei e consegui. Quatro dias inteiros. Confesso: tão pouco e tão superficial! Mas o bastante para me espantar com a vastidão da inteligência e com amplitude de alcance de seus interesses, bem como com  a acuidade de seu talento de humanista.

         Estabelecido está: Fernando Pessoa é um literato canônico do Ocidente. Harold Bloom assim o reconhece. O que me surpreendeu foi o Fernando Pessoa iluminado. Aquele que, despudoradamente, procura restaurar o mito sebastianista português, propondo o uso da caravela-idioma-português – grafado etimologicamente, como veículo de instauração do Quinto Império. Ele sabia e ensinava que houve, no destino transcorrido da Humanidade, um Primeiro Império – o Império Grego – onde refulgiam a razão, o conhecimento, a filosofia e a beleza.

         Depois, surgiu um Segundo Império – o Império Romano – onde força, poder e ordem  foram valores.

         Mais tarde, surgiu o Império Cristão, universal, abarcando helenos, egípcios, romanos e asiáticos, sob a égide do amor ao Cristo.

         Nos tempos de Fernando Pessoa – e até hoje – vivia-se sob o mandato do Quarto Império – o Império Britânico - instruído pela eficiência da produção, visando ao domínio e ao dinheiro.

         O mundo em que vivemos – 1999 – é uma ampliação sofisticada desse Império Norte-Americano globalizado, feito de supereficiência, competição, informatização e tirania do megacapital extorquindo juro. A afluência e o consumo de bens de conforto não diminuíram o  desassossego dos povos e das gentes. Pelo contrário. O desassossego hoje atende pelos epítetos psiquiátricos de “estresse”, “síndrome de pânico” e “depressão devastada”.

         O que falta a esse Império mundializado manqueba é, exatamente, um objetivo, uma utopia viável, uma concepção depurada em espírito acerca  do destino comum da humanidade.

         Fernando Pessoa, mais que nunca, é o profeta de novos tempos. Mediante a sua genialidade, o poeta propõe que:

         “Deve cada um de nós fazer por em si realizar o máximo que pode de semelhante ao Desejado.”

         Guiados pela palavra escorreita – brasa assoprada – do literato, iremos convertendo porções crescentes de materialidade eficiente em cultura, espaço de criação de novos mundos míticos, conceituais e de realidades potenciais, que abrem caminho ao novo e ao satisfator. Eis aí o poder criador e estabilizador da civilização: o poder de transformar coisas em cultura, sob o influxo do espírito do homem de escol.

         “O mito é o nada que é tudo.”

         “O mundo conduz-se por mentiras.”

         Bilíngüe – inglês-português –, nacionalista místico e sebastianista lúcido, Fernando Pessoa foi, como todos nós, vítima do desassossego do homem moderno. Percebe ele, com suas poderosas antenas sensacionistas, a inquietude e o mal-estar que a vida moderna inocula, insidiosa e inexoravelmente, em todos nós.

         O Quarto Império inglês e norte-americano, montado na eficiência de produção, na aceleração dos tempos, na busca desenfreada do lucro nas transações e do dinheiro, tornado em si objetivo, levava o homem moderno à exasperação, a ataques de nervos e à infelicidade constante, como forma de vida. Fernando já percebera então que a humanidade, à moda ocidental, pratica em larga escala o infanticídio do espírito, fazendo durar o menos possível a criança em cada um de nós. Num mundo onde prevalece a eficiência, não se conservam as qualidades distintivamente humanas, como as da imaginação em vez do saber, do brincar em vez do trabalhar, da visão sincrética do todo em vez da separação analítica.

         Homem de cultura, arauto de seu tempo, Pessoa pensou a partir de onde começava: do rio de sua aldeia, do pequenino Portugal, quase expelido dos negócios tenebrosos das grandes nações européias.

         Proveniente da estirpe dos intrépidos navegadores que, por quase dois séculos apresentaram novos mundos à Europa, o míope Fernando Pessoa encheu-se de inconformismo diante do lugar menor ocupado por Portugal no concerto das nações européias. Armou-se cavaleiro como Amadis de Gaula e apurou a lira de seu “Cancioneiro de amigo”, propugnando pela defesa da pura etimologia da língua portuguesa, para praticar a travessura de um mundo inquieto e insatisfatório, ainda que estabelecido – o império do domínio do dinheiro inglês-norte-americano -, e propor um novo mundo, por ele, Pessoa, descoberto e revelado: o mundo do poderio da alta cultura, fruto do amanho do espírito humano. A sociedade é organismo vivo que deve harmonizar tendências destrutivas e estagnantes com tendências construtivas e inovadoras, visando a superar-se, rumo ao bem comum.

         É a palavra, articulada em linguagem capaz de se impor como poesia, que irá sensibilizar os homens para viverem em novo patamar cultural onde se  mantém como valor a criança que em cada um existe, com a corporeidade estuante ao contato com as coisas tais como elas são, e o pensamento servido aos mais nobres objetivos bem-convivenciais entre os homens.

         Ser criador da civilização é saber transformar o dado, o achado, para o outro, para melhor; é ter capacidade alquímica de transmutação da própria substância.

         Se o homem plebeu só pode  compreender a civilização vulgar de eficácia e bem-estar material e com isso julga que “ter automóvel é ser feliz”, há um primado supra-social que proclama a superioridade da inteligência e do espírito.

         Este o Quinto Império a vir a ser instaurado pelo supra-Camões, o homem novo, presidente-rei, que há de provir do mito do Desejado como o Encoberto pela bruma da dureza dos tempos atuais, saindo de breve de um dia de manhã, do nevoeiro, para espargir um novo radiante regime de paz, de cultura, de concórdia e de espírito entre todos os homens.

         Fernando Pessoa era um arregimentador de homens. Um indisciplinador de almas, voltado ao fim nobre de despertar o mundo-Portugal da leseira do comodismo concorde e da covardia da falta de atitudes.

         Desde 1928 pelo menos, Fernando Pessoa compenetrou-se de sua função sócio-cultural de catalisação psico-espiritual da nacionalidade portuguesa, interrelacionando seu ofício de poeta enxertado por seus conhecimentos iniciáticos e ocultistas com a atividade política, ao despertar o mito sebastiânico de redenção de Portugal.

         Como literato, Fernando Pessoa descortinou seu papel de profeta da precisão da vinda de um outro tempo – uma utopia – na qual estivesse o homem desescravizado das peias da necessidade de vender sua vida aos negócios. Como homem de visão abarcante dos muitos campos de saberes, Fernando Pessoa era um polímata. E como tal, capaz de indicar o caminho da terra do sossego e da decência, do promontório de Portugal para toda a Europa e para o resto do mundo. Este o Fernando Pessoa que se me revelou: o político, o visionário, o condutor de homens, rumo ao exercício ameno da fruição de sua humanidade.

         Fernando Pessoa não era ingênuo. Pressentia o quão distante estávamos – e estamos – de atingir esse estado de jardim frondoso-paraíso sobre a Terra. Homem habituado a perder nos embates soturnos, corriqueiros e mesquinhos, ao longo de sua vida, tendo abdicado de vivê-la em largas porções, como pequeno funcionário que era, trocou-a pela liberdade pessoal, base imprescindível para dar vazão ao seu talento e confeccionar sua obra. Valeu a pena, pois sua alma não era pequena. Assim sendo, incorporou sua ética maior – sua arte – a qual se lhe impôs como um mandato.

         Pensar alto. Propor algo mais elevado ainda. Pois sabia que homem sem projeto utópico se dana na banalidade dos atravessamentos desassossegados do cotidiano.

         A espécie humana não tolera deparar com a realidade. Muito menos, ainda, lidar com ela. Diante do absurdo que é a existência e em decorrência da futilidade geral de tudo, é preciso erguer anteparos, criar defesas e propor algo mirífico ou mítico, que seja, para albergar a esperança e servir de coalizador de intenções e de gestos. Somos uma cultura messiânica, soteriológica. Esperamos sempre a vinda de uma figura magnífica – carreando um tempo – capaz de ressarcir danos, reparar mágoas, desfazer malfeitos e misturar-nos todos, num tempo da delicadeza, da bondade, com segurança e beleza. No âmago do eu profundo de cada um de nós, há essa secreta esperança salvífica: de que alguém eleito, ungido, predestinado, aguardado virá do fundo da neblina para nos redimir e salvar. Salvar-nos de nós mesmos: sacudir nossa preguiça, podar nossa inveja, regular nossa luxúria, conter nossa ira, colocar sob dieta nossa gula, moderar nosso exacerbado orgulho e, sobretudo, punir nosso sórdido apego excessivo ao dinheiro. Este – Rei do Mundo – virá. Será o Messias profetizado. Ou D. Sebastião redivivo, pois ele deve ao povo português sua perdição numa tarde de má luta, em 1578, defronte a Alcácer Quibir, no Marrocos. E sendo assim, a ele compete a redenção do Quinto Império Português.

 Salvíficos somos todos nós, na esperança descrente do exercício do voto, a cada eleição. Soteriológicos somos cada um de nós, a cada transição de fase pela qual nos metamorfoseamos ao longo de nossa vida. A cada etapa, a cada revés, a cada retrocesso, ou, quando as havia, a cada conquista, é próprio do espírito humano iluminar-se, concebendo e acreditando em utopia, para poder vir-a-ser.

Usar a língua etimologicamente escrita como meio material de fixação do espírito empreendedor do homem de escol português, com seu modo próprio de ser, de estar, interpretar e construir o mundo para se atingir o objetivo primordial: o império da cultura.

Momentos criadores de civilização são, para o poeta, momentos de avanço, em que o homem descobre o desconhecido e com ele cria o novo, o diferente, o “outro”.

         O que lhes trago hoje, pessoanos desde os bancos escolares, fernandinos por gosto e por justo orgulho nacional, é a minha espantosa descoberta  de que, bem mais portentoso que o fato de Fernando Pessoa ser vários grandes poetas – coisa em si inusitada, que capta e tantaliza a atenção e a caneta de todos aqueles que se debruçam sobre a fonte perene que é o literato. E  o que a mim maravilhou foi ter-se-me revelado o homem maior, que apascenta o rebanho da humanidade, diligente, paciencioso, simples e verdadeiro, profeta e delirante, rumo  a uma utopia política da mais excelsa qualidade.

         Fernando Pessoa é um fundador de dinastia. Ele é o fundador lisboeta do Quinto Império. Aquele que Daniel interpretou no Sonho de Nabucodonosor: o império do espírito do homem implantado no universo sob o signo do humano.

 

         “PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada

                  teu exagera ou exclui

         Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

                  No mínimo que fazes.

         Assim em cada lago a lua toda

                  Brilha, porque alta vive.”

 

“Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez?”


BIBLIOGRAFIA

1.   BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

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4.   CRESPO, Angel. A vida plural de Fernando Pessoa. Venda Nova: Bertrand, 1988.

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6.   GOMES, Álvaro Cardoso. Fernando Pessoa: as muitas águas de um rio. São Paulo: Edusp, 1987.

7.   PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974.

8.   ____ . A procura da verdade oculta. Textos filosóficos e esotéricos. Organizador          Antônio Quadros. Lisboa: Publicações Europa América, 1991.

9.   _____ . Obras em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998.

10._____ . Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

11._____ .  A Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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13. SILVA, Agostinho da. Um Fernando Pessoa. Lisboa. Guimarães, 1988.

14.STEINER, George. Fernando Pessoa e seus heterônimos. http.//.wwwSecrel.com.br./jpoesia//gs01html.

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