FERNANDO
PESSOA: O EXCESSO DE SER
Marco Aurélio Baggio
Já se sabe tudo sobre a vida multifacetada de
Fernando Pessoa. Sua obra vem sendo coligida por uma plêiade de aficcionados:
os pessoanos. Consta ter deixado cerca de 27.000 documentos, encontrados num
baú, após sua morte.
Não foi Fernando Pessoa um homem feliz. No
entanto, é um homem realizado.
Ele
encarnou o melhor do espírito português, aquele do descobrimento de mundos,
implantando o fogo e a luz de uma civilização.
Fernando
Pessoa foi um ser que deu abrigo à coexistência de múltiplos seres. E o fez por
excesso de talento e acendrada curiosidade.
“Sou um nacionalista místico, um
sebastianista racional. Mas sou, aparte isso e até em contradição com isso,
muitas outras coisas.”
Poeta? Sim. Poeta maior da exuberante e resistente língua
portuguesa. Poesia como bom manejo da língua, numa busca interminável de
descobertas e ocultações, de revelações luminosas e apreensão de obscuridades
constituintes, de constatação de certezas provisórias e de dúvidas instigantes,
numa complexa espiral ascendente em que o sentimento e a linguagem
reciprocamente se enlaçam, desvelam-se e se encobrem, no espaço variegado de
nossas indefinições.
“Um fingimento deveras.”
“Música que se faz com idéias.”
Mas
não apenas – Fernando Pessoa foi o publicitário: “-Coca-cola: Primeiro estranha-se; depois, entranha-se.”
Foi o
operoso catalogador de um seu invento: “Anuário
ou indicador sintético, por nomes e outras quaisquer classificações,
consultável em qualquer língua”, registrado como patente sua, com vistas a
obter polpudos rendimentos.
Fracassado
em conseguir negócio próprio, viveu modestamente dos proventos de
“correspondente estrangeiro” das melhores casas comerciais de Lisboa. Fez opção
pela discreta e quase pobre vida, o que não lhe permitiu ser capaz de sustentar uma mulher – “boquinha
doce” Ofélia Queiroz – nem fazer imprimir livros em vida. Pobre. Decente. Sem
mágoas, Fernando optou por manter sua liberdade de agente criador, desbravador
de um mundo que começara a falir com o entrechoque dos imperialismos da
eficiência, na Primeira Grande Guerra.
Fernando
equipou suas naus. E as enviou em todas as direções, cônscio da precisão que é
explorar mares por navegação.
Principiou
escrevendo boa poesia em inglês, sua segunda língua natal, sob o nome de um
suposto Alexander Search, ainda na África do Sul.
Depois,
revisitando Lisboa, optou por usar a língua portuguesa como meio, veículo e
nau, para bordejar os novos mundos que se dispunham à cobiça de sua curiosidade
infantil. Sim, porque Fernando Pessoa, mercê talvez de suas vicissitudes
relacionais familiares, manteve-se como feliz criança, ávida de brincar com o
mundo.
“Se eu morrer muito novo, ouçam isto:
Nunca fui senão uma criança que
brincava.”
ou ainda:
“É-se sempre criança.”
“O melhor do mundo são as crianças.”
Sua
curiosidade aliou-se a uma peculiar e exacerbada sensibilidade, que o manteve
em estágio de larva-ninfa-pupa – jamais inseto pleno voador, experimentando uma
pluralidade de sensações, de pensamentos, de figurações, de estados de alma e
de vivências que o tornaram o ser único na história da literatura e na
psicologia das gentes.
Para
começar, Fernando Pessoa jamais foi psicótico. Também não foi homossexual. Sua
latente homossexualidade, insinuada por alguns, como Ferreira Gullar, não é
maior nem muito menos motivadora que aquela que cada um de nós, homens, carrega
em seu bojo.
Não.
Fernando Pessoa viveu com uma raiz merencória a morte do pai por tuberculose,
quanto tinha seis anos, o decaimento econômico conseqüente, o casamento da mãe
com o comandante João Miguel Rosa, designado cônsul em África. A ida para as antípodas do mundo,
Durban, cidadezinha nascendo na África do Sul, o choque cultural: clima, cores,
comida, língua, o nascimento sucessivo dos irmãos tiveram influência em sua
obra.
É provável que esses fatos tenham
interrompido o doce livre fluir da infância paradisíaca do menino Fernando.
Disso, ele se queixava. Da nostalgia da infância, perdida, do desafeto da mãe
que nunca o amou suficientemente. Os seres humanos são bebês chorões em pura
carência. Fernando então se retraiu. Em termos. Mas Durban deu-lhe quatro
caminhos: ser bom aluno, ler boa literatura inglesa - As aventuras de Mr. Pickwick. “O
sr. Pickwick pertence às figuras sagradas da história do mundo” – e
corresponder com um amigo imaginário – ele mesmo. A descoberta do mundo novo da
poesia – Alexander Search – abriu-lhe uma poderosa via expressiva, por onde escoou, genialmente, toda sua ampla
subjetividade.
Fernando
Pessoa definiu-se como um histérico. Mais precisamente, um
hístero-neurastênico, como se dizia na época.
Conhecia
a obra de Freud, pela qual não manifestou particular apreço.
Pois
bem! Foi um histérico. Sabemos hoje que histeria é raiz constitucional psíquica
que urde e tece em torno do vazio decorrente da falta do contato humano
caloroso e farto, criando uma construção imaginária, de subjetividade ansiosa
de aparecer e de seduzir. Toda vez que nos expressamos, fazemo-lo por
imperativo de nossos traços histéricos. Fernando Pessoa soube usar e escandir
sua histeria para fins literários. Neurastênico – fraco de nervos, nervoso,
hipersensível, irritadiço e retraído, também o foi. Neurastenia hoje é considerada uma forma de distimia ou
depressão menor. Fundo depressivo. Traços melancólicos. Claro: Fernando Pessoa,
como qualquer homem civilizado, acossado pelo absurdo da existência e
perseguido pelos minúsculos revezes do cotidiano, foi portador de uma depressão
de fundo, que utilizou como verruma de introspecção para erigir sua obra.
Tendo
mamado o leite da bondade humana, em posição serena, até os seis anos de idade,
Fernando Pessoa viu cortado abruptamente seu suprimento de harmoniosa
composição de vida. Tornou-se nostálgico de um tempo bom, outrora havido e
desfrutado.
“No tempo em
festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e
ninguém estava morto.
.........................................................................
Eu tinha a
grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser
inteligente para entre a família,
E de não ter
as esperanças que os outros tinham por mim.
..........................................................................................
Raiva de não ter trazido o
passado roubado na algibeira!...”
Eis a
raiz de seu messianismo posterior: viver pode vir a ser uma procura constante
de resgate de um tempo feliz que passou, passou. Vive-se então para, de alguma
forma, tentar restaurá-lo.
“ - Sou a criança triste em quem a vida
bateu.”
Fernando
Pessoa era, isto sim, um esquizóide.
“Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.”
Homem
civilizado, educado, de fino trato, bem-humorado, arguto e inteligente, assim
se dispunha para aquele tantos poucos com os quais convivia: o leiteiro, o
barbeiro, sua irmã, sua sobrinha, os agentes comerciais, o chefe, o patrão, os
donos dos bares e, sobretudo, os contertúlios das Arcádias e das revistas
literárias.
Não é a carga psicopatológica que alguém
carrega algo capaz de gerar obra de arte, mas sim o montante do talento de que
o artista é dotado. Isso, acrescido do empenho e da dedicação dele ao trabalho.
No
entanto, Fernando Pessoa era retraído de um contato humano mais efusivo, era
discreto e sem envolvimentos pessoais, tímido mesmo em seu desempenho social e
evitadiço de compromissos afetivos heterocompartidos. Consta que teve um
arrebatamento e uma paixão, uma única vez, por Ofélia Queiroz, em 1920. Quatro
fatores operaram contra esse amor:
primeiro, o fato de não ter renda para sustentar uma mulher, a não ser
que se dispusesse a trabalhar mais; segundo, o haver percebido que, quem nos
ama, de nós sente-se dono, e ele não estava disposto a se privar de sua
liberdade; terceiro, sua própria natureza esquizóide, de pessoa que teme e foge
desse amor; e, por fim, o fato de que, por decurso de prazo, a paixão se extinguiu, espontaneamente,
meses depois.
“Queriam-me casado, fútil, quotidiano,
tributável?
Queriam-me o contrário disto, o
contrário de qualquer cousa!
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a
todos, a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
ou deixem-me ir sozinho para o diabo!”
Não
teve assim o privilégio de conviver com uma vida familiar, afetiva, calorosa,
sexualizada, heterocompartida.
“E como é branca de graça a paisagem
que não sei
vista de trás da vidraça do lar que não
terei.”
Capitão
de longo curso, Fernando Pessoa escolheu o rumo e dele não se afastou.
“O meu
destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está
subordinado cada vez mais a obediência de Mestres que permitem nem perdoam.”
Pagar
o preço do gênio.
“Viver não é
necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em
gozá-la
penso. Só quero torná-la grande, ainda
que para
isso tenha de ser o meu corpo e a minha
alma a
lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que
para isso tenha de a perder como minha.
Cada
vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o
propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução
da humanidade.”
Viveu
só e assim foi perdendo lentamente as vias de inserção e de sustentação
humanas, que o levaram ao tabagismo e ao alcoolismo que o mataram aos 46 anos.
Fernando foi um solitário. Mas não se queixou.
Tinha
uma insaciável curiosidade de conhecer tudo. Meteu-se a estudar profundamente
toda a tradição ocultista e esotérica do Ocidente: cabala, hermetismo,
astrologia, maçonaria, metafísica, paganismo, mediunidade, gnose, teosofia e
horóscopo, os templários e os rosa-cruzes. Rafael Baldaya – astrólogo – foi seu
criado na empreitada.
“...
e há em cada canto de minha alma um altar a um deus diferente.”
Tinha
forte bagagem filosófica, conhecia profundamente o humanismo da antigüidade
clássica grega e romana. Versado na história de Portugal, cedo percebeu o valor
cultural que a pequenina nação portuguesa ofereceu à Europa e ao mundo, no
tempo dos descobrimentos.
“A Europa quer donos! O mundo quer a
Europa!
Mas eu, da raça dos descobridores,
desprezo o que seja menos
do
que descobrir um Novo Mundo!”
Conhecedor
da literatura universal, sofreu influência de epígonos ingleses, franceses e de
Walt Whitman.
Mas
cedo ainda, ao criar sua obra, Fernando Pessoa despiu-se das ansiedades da
influência e tornou-se, apenas e perfeitamente, português.
Alberto
Caeiro, mestre, surgiu assim, “puro”, isento de influências. Português:
pequenino, mas valoroso; de início, decadente, para, a seguir, tornar-se
moderno, depois abrangente, visionário, sebastianista, utópico, missionário e
universal. Assim hoje, de pleno direito, vem sendo reconhecido e considerado.
Acossado
pela mesquinharia do cotidiano, sabedor, mediante horóscopo próprio, por ele
elaborado, de que sua vida se extinguiria, figura pouco relevante numa
sociedade ultraconservadora, Fernando Pessoa foi, a seu modo, um homem de ação.
Intrometeu-se no ideário político português com um pertinência absolutamente
contemporânea e uma audácia que só espíritos libertos detêm.
“À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”,
“O interregno” e “Como organizar Portugal” e textos para dirigentes de empresas,
páginas de doutrina estética e de teoria e crítica literárias são exemplos de
sua participação operosa.
Fernando
Pessoa já era excelente poeta quando, um dia, seu lado feminino e sua histeria
deram à luz um mestre, o poeta maior Alberto Caeiro. Desdobrado de si, num interessante
fenômeno criativo de desdobramento de consciência, Fernando Pessoa começou a
“diversificar-se” em poetas. Em 8 de março de 1914, esse jovem empresário de
“eus” trouxe ao mundo os heterônimos que vieram dar estofo aos demais setenta e
dois personagens que convocou para participarem do “teatro íntimo do eu”
Caeiro
resgata a pureza da sensação:
“Cada
coisa o é por ser.”
Mais
tarde, o poeta clássico latino virá à tona com o heterônimo Ricardo Reis. Reis
prega o homem indiferente diante do arbítrio e do poder dos deuses, do destino
inelutável e da morte. Pratica uma poética e uma estética próprias da
antigüidade clássica. Mantém um pensamento alto, com inflexões filosóficas
estóicas e epicuristas, expressando-se num português erudito. “A vida é para ser vivida sem desassossegos
grandes.”
“Cada um cumpre o destino que lhe
cumpre
E deseja o destino que deseja
Nem cumpre o que deseja
Nem
deseja o que cumpre...”
“Cumpramos o que somos
Nada mais nos é dado.”
Em
seguida, o poeta sensacionista contemporâneo da modernidade, o futurista Álvaro
de Campos, veio à vida como um núcleo de energia para explodir em
impulsividade, emoção e arte. É o que se nota em “Tabacaria”:
“Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos
levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o
Indefinido.”
A
admiração do engenheiro pelo avanço da civilização mecânica e pelo
desenvolvimento tecnológico transparece na “Ode
Triunfal”:
“Ah, poder
exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante
como um automóvel último-modelo!”
O
que se vê é uma fecunda dissociação do eu, dando origem a personas que
expressarão o talento múltiplo e variado do poeta. Algo nunca visto em toda a
literatura mundial. Sui generis: um
autor ter seu ego convertido em legião. Uma única pessoa criar,
simultaneamente, a obra plena de quatro grandes poetas, com características e
estilos próprios. Os heterônimos são o cenário mais conhecido e mais visitado
de todo o parque temático que é a obra de Fernando Pessoa.
Nela
não nos deteremos por já estar sobejamente mapeada por fernandinos e pessoanos
de maior embocadura.
Infeliz
e inquieto homem de seu tempo, sensitivo e participante, cheio de arestas e de
susceptibilidades, personalidade esquizóide típica, que não abrandou mediante
aconchego no colo macio de sua amada amante mulher, Fernando Pessoa deu vazão a
sua inquietude naquilo que hoje fulgura como um tratado de vivências neuróticas
humanas, como o magnífico “Livro do Desassossego”. Aí, nessa “obra doentia”,
foi jogando no baú folhas e anotações esparsas, a maioria sinaladas apenas “L.
do D”. Em boa hora vem à luz, nesse fevereiro de 1999, a edição completa e
cuidadosa do “Livro do Desassossego”, pela Companhia das Letras.
Que
dizer então do “drama em gente” que viveu à custa da própria carne? No “Teatro
do ser” que montou, o poeta colocou em cena, no palco, seu ortônimo, seus
heterônimos e suas personalidades literárias em desempenho e movimento, onde a
ficção e a realidade se confundem. Cada um, uma pessoa. Uma persona. Uma
máscara. Uma personalidade. Uma pessoalidade, com vida e modo próprio de ser,
de existir e de se expressar.
Multidão
de egos. Polipeiro de imagens. Vespeiro de contradições. Enxame de
personalidades. Cachão de concepções. Homem de cultura. Cidadão de seu tempo.
Sabedor do gênio que em si abrigava. Poço de contradições. Definia a si mesmo
como sendo o próprio paradoxo: “O
paradoxo sou eu.”
Fernando
Pessoa é o mais espetacular exemplo da multiplicidade de pessoas que em nós
habita. Sua obra é a explicitação mais bem acabada de como um potente psiquismo
pode dar voz, ordem e vazão a cada uma delas, sem endoidecer.
Desmisturadamente.
Como
psiquiatra, orgulho-me de reconhecer na pessoa Fernando Pessoa o exemplo digno
de alguém que soube superar inferioridade e transmutá-la em noção depurada de
humanidade... Artista. Pesquisador. Estudioso. Neopagão. Civilizador. Grande
homem. Niilista existencial, Fernando Pessoa é um portentoso precursor poético
daquele movimento filosófico que tomou de assalto os meios parisienses do
pós-guerra: o existencialismo. Pessoa é um existencialista pleno avant la lettre. Em poemas como
“Tabacaria”, “Apostila”, “Adiamento”, “Aniversário”, ele revela a própria
consciência infeliz do homem moderno.
Devo
confessar: era, até a semana passada, um singelo leitor de Fernando Pessoa. De
“Tabacaria”, “Poema em linha reta”, “Autopsicografia”, “Mar Portuguez”,
“Psiquetipia”, “Eros e Psique”, e alguma pouca coisa mais. Era, portanto, era
um pessoano iniciante, de reles qualidade.
Viver
é atrever-se.
O
Cônsul-Geral de Portugal em Belo Horizonte, Dr. Silvino Ferreira Leite, viu-me
discorrendo sobre “Tabacaria”, em julho passado, no extinto Programa Psi, que
mantinha no Canal 30. Em sua sensibilidade de autêntico português e com a generosidade de sua fineza
de trato, convidou-me a sua casa e encomendou-me uma conferência a ser feita
nesta IX Semana da Cultura Luso-Brasileira, o que muito me honrou.
Acedi.
Nos resquícios de meus antepassados que geraram minh’alma portuguesa, adoro
navegar desafios. O importante é buscar. O encontrar não é preciso.
Pois
bem! Diante de meus cotidianos afazeres comezinhos, propus-me a encontrar tempo
para entrar em relação com o máximo de Fernando Pessoa: sua obra erigida a
todos os custos. Reservei e consegui. Quatro dias inteiros. Confesso: tão pouco
e tão superficial! Mas o bastante para me espantar com a vastidão da
inteligência e com amplitude de alcance de seus interesses, bem como com a acuidade de seu talento de humanista.
Estabelecido
está: Fernando Pessoa é um literato canônico do Ocidente. Harold Bloom assim o
reconhece. O que me surpreendeu foi o Fernando Pessoa iluminado. Aquele que,
despudoradamente, procura restaurar o mito sebastianista português, propondo o
uso da caravela-idioma-português – grafado etimologicamente, como veículo de
instauração do Quinto Império. Ele sabia e ensinava que houve, no destino
transcorrido da Humanidade, um Primeiro Império – o Império Grego – onde
refulgiam a razão, o conhecimento, a filosofia e a beleza.
Depois,
surgiu um Segundo Império – o Império Romano – onde força, poder e ordem foram valores.
Mais
tarde, surgiu o Império Cristão, universal, abarcando helenos, egípcios,
romanos e asiáticos, sob a égide do amor ao Cristo.
Nos
tempos de Fernando Pessoa – e até hoje – vivia-se sob o mandato do Quarto
Império – o Império Britânico - instruído pela eficiência da produção, visando
ao domínio e ao dinheiro.
O
mundo em que vivemos – 1999 – é uma ampliação sofisticada desse Império
Norte-Americano globalizado, feito de supereficiência, competição,
informatização e tirania do megacapital extorquindo juro. A afluência e o
consumo de bens de conforto não diminuíram o
desassossego dos povos e das gentes. Pelo contrário. O desassossego hoje
atende pelos epítetos psiquiátricos de “estresse”, “síndrome de pânico” e
“depressão devastada”.
O
que falta a esse Império mundializado manqueba é, exatamente, um objetivo, uma
utopia viável, uma concepção depurada em espírito acerca do destino comum da humanidade.
Fernando
Pessoa, mais que nunca, é o profeta de novos tempos. Mediante a sua
genialidade, o poeta propõe que:
“Deve
cada um de nós fazer por em si realizar o máximo que pode de semelhante ao
Desejado.”
Guiados
pela palavra escorreita – brasa assoprada – do literato, iremos convertendo
porções crescentes de materialidade eficiente em cultura, espaço de criação de
novos mundos míticos, conceituais e de realidades potenciais, que abrem caminho
ao novo e ao satisfator. Eis aí o poder criador e estabilizador da civilização:
o poder de transformar coisas em cultura, sob o influxo do espírito do homem de
escol.
“O mito é o nada que é tudo.”
“O
mundo conduz-se por mentiras.”
Bilíngüe
– inglês-português –, nacionalista místico e sebastianista lúcido, Fernando
Pessoa foi, como todos nós, vítima do desassossego do homem moderno. Percebe
ele, com suas poderosas antenas sensacionistas, a inquietude e o mal-estar que
a vida moderna inocula, insidiosa e inexoravelmente, em todos nós.
O
Quarto Império inglês e norte-americano, montado na eficiência de produção, na
aceleração dos tempos, na busca desenfreada do lucro nas transações e do
dinheiro, tornado em si objetivo, levava o homem moderno à exasperação, a
ataques de nervos e à infelicidade constante, como forma de vida. Fernando já
percebera então que a humanidade, à moda ocidental, pratica em larga escala o
infanticídio do espírito, fazendo durar o menos possível a criança em cada um
de nós. Num mundo onde prevalece a eficiência, não se conservam as qualidades
distintivamente humanas, como as da imaginação em vez do saber, do brincar em
vez do trabalhar, da visão sincrética do todo em vez da separação analítica.
Homem
de cultura, arauto de seu tempo, Pessoa pensou a partir de onde começava: do
rio de sua aldeia, do pequenino Portugal, quase expelido dos negócios
tenebrosos das grandes nações européias.
Proveniente
da estirpe dos intrépidos navegadores que, por quase dois séculos apresentaram
novos mundos à Europa, o míope Fernando Pessoa encheu-se de inconformismo
diante do lugar menor ocupado por Portugal no concerto das nações européias.
Armou-se cavaleiro como Amadis de Gaula e apurou a lira de seu “Cancioneiro de
amigo”, propugnando pela defesa da pura etimologia da língua portuguesa, para
praticar a travessura de um mundo inquieto e insatisfatório, ainda que
estabelecido – o império do domínio do dinheiro inglês-norte-americano -, e
propor um novo mundo, por ele, Pessoa, descoberto e revelado: o mundo do
poderio da alta cultura, fruto do amanho do espírito humano. A sociedade é
organismo vivo que deve harmonizar tendências destrutivas e estagnantes com
tendências construtivas e inovadoras, visando a superar-se, rumo ao bem comum.
É
a palavra, articulada em linguagem capaz de se impor como poesia, que irá
sensibilizar os homens para viverem em novo patamar cultural onde se mantém como valor a criança que em cada um
existe, com a corporeidade estuante ao contato com as coisas tais como elas
são, e o pensamento servido aos mais nobres objetivos bem-convivenciais entre
os homens.
Ser
criador da civilização é saber transformar o dado, o achado, para o outro, para
melhor; é ter capacidade alquímica de transmutação da própria substância.
Se
o homem plebeu só pode compreender a
civilização vulgar de eficácia e bem-estar material e com isso julga que “ter
automóvel é ser feliz”, há um primado supra-social que proclama a superioridade
da inteligência e do espírito.
Este
o Quinto Império a vir a ser instaurado pelo supra-Camões, o homem novo,
presidente-rei, que há de provir do mito do Desejado como o Encoberto pela
bruma da dureza dos tempos atuais, saindo de breve de um dia de manhã, do
nevoeiro, para espargir um novo radiante regime de paz, de cultura, de
concórdia e de espírito entre todos os homens.
Fernando
Pessoa era um arregimentador de homens. Um indisciplinador de almas, voltado ao
fim nobre de despertar o mundo-Portugal da leseira do comodismo concorde e da
covardia da falta de atitudes.
Desde
1928 pelo menos, Fernando Pessoa compenetrou-se de sua função sócio-cultural de
catalisação psico-espiritual da nacionalidade portuguesa, interrelacionando seu
ofício de poeta enxertado por seus conhecimentos iniciáticos e ocultistas com a
atividade política, ao despertar o mito sebastiânico de redenção de Portugal.
Como
literato, Fernando Pessoa descortinou seu papel de profeta da precisão da vinda
de um outro tempo – uma utopia – na qual estivesse o homem desescravizado das
peias da necessidade de vender sua vida aos negócios. Como homem de visão
abarcante dos muitos campos de saberes, Fernando Pessoa era um polímata. E como
tal, capaz de indicar o caminho da terra do sossego e da decência, do
promontório de Portugal para toda a Europa e para o resto do mundo. Este o
Fernando Pessoa que se me revelou: o político, o visionário, o condutor de
homens, rumo ao exercício ameno da fruição de sua humanidade.
Fernando
Pessoa não era ingênuo. Pressentia o quão distante estávamos – e estamos – de
atingir esse estado de jardim frondoso-paraíso sobre a Terra. Homem habituado a
perder nos embates soturnos, corriqueiros e mesquinhos, ao longo de sua vida,
tendo abdicado de vivê-la em largas porções, como pequeno funcionário que era,
trocou-a pela liberdade pessoal, base imprescindível para dar vazão ao seu
talento e confeccionar sua obra. Valeu a pena, pois sua alma não era pequena.
Assim sendo, incorporou sua ética maior – sua arte – a qual se lhe impôs como
um mandato.
Pensar
alto. Propor algo mais elevado ainda. Pois sabia que homem sem projeto utópico
se dana na banalidade dos atravessamentos desassossegados do cotidiano.
A
espécie humana não tolera deparar com a realidade. Muito menos, ainda, lidar
com ela. Diante do absurdo que é a existência e em decorrência da futilidade
geral de tudo, é preciso erguer anteparos, criar defesas e propor algo mirífico
ou mítico, que seja, para albergar a esperança e servir de coalizador de
intenções e de gestos. Somos uma cultura messiânica, soteriológica. Esperamos
sempre a vinda de uma figura magnífica – carreando um tempo – capaz de
ressarcir danos, reparar mágoas, desfazer malfeitos e misturar-nos todos, num
tempo da delicadeza, da bondade, com segurança e beleza. No âmago do eu
profundo de cada um de nós, há essa secreta esperança salvífica: de que alguém
eleito, ungido, predestinado, aguardado virá do fundo da neblina para nos
redimir e salvar. Salvar-nos de nós mesmos: sacudir nossa preguiça, podar nossa
inveja, regular nossa luxúria, conter nossa ira, colocar sob dieta nossa gula,
moderar nosso exacerbado orgulho e, sobretudo, punir nosso sórdido apego
excessivo ao dinheiro. Este – Rei do Mundo – virá. Será o Messias profetizado.
Ou D. Sebastião redivivo, pois ele deve ao povo português sua perdição numa
tarde de má luta, em 1578, defronte a Alcácer Quibir, no Marrocos. E sendo
assim, a ele compete a redenção do Quinto Império Português.
Salvíficos somos todos nós, na esperança descrente do exercício do
voto, a cada eleição. Soteriológicos somos cada um de nós, a cada transição de
fase pela qual nos metamorfoseamos ao longo de nossa vida. A cada etapa, a cada
revés, a cada retrocesso, ou, quando as havia, a cada conquista, é próprio do
espírito humano iluminar-se, concebendo e acreditando em utopia, para poder
vir-a-ser.
Usar a língua etimologicamente escrita como
meio material de fixação do espírito empreendedor do homem de escol português,
com seu modo próprio de ser, de estar, interpretar e construir o mundo para se
atingir o objetivo primordial: o império da cultura.
Momentos criadores de civilização são, para o
poeta, momentos de avanço, em que o homem descobre o desconhecido e com ele
cria o novo, o diferente, o “outro”.
O
que lhes trago hoje, pessoanos desde os bancos escolares, fernandinos por gosto
e por justo orgulho nacional, é a minha espantosa descoberta de que, bem mais portentoso que o fato de
Fernando Pessoa ser vários grandes poetas – coisa em si inusitada, que capta e
tantaliza a atenção e a caneta de todos aqueles que se debruçam sobre a fonte
perene que é o literato. E o que a mim
maravilhou foi ter-se-me revelado o homem maior, que apascenta o rebanho da
humanidade, diligente, paciencioso, simples e verdadeiro, profeta e delirante,
rumo a uma utopia política da mais
excelsa qualidade.
Fernando
Pessoa é um fundador de dinastia. Ele é o fundador lisboeta do Quinto Império.
Aquele que Daniel interpretou no Sonho de Nabucodonosor: o império do espírito
do homem implantado no universo sob o signo do humano.
“PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada
teu
exagera ou exclui
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No
mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha,
porque alta vive.”
“Por que é que todos não se reúnem,
para sofrer e vencer juntos, de uma vez?”
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procura da verdade oculta. Textos filosóficos e esotéricos.
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12. SIMÕES, João Gaspar. Fernando
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Fernando Pessoa. Lisboa. Guimarães, 1988.
14.STEINER, George. Fernando
Pessoa e seus heterônimos. http.//.wwwSecrel.com.br./jpoesia//gs01html.
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