terça-feira, 2 de abril de 2013

NELSON RODRIGUES E A PSICANÁLISE


NELSON RODRIGUES

A relevância da obra rodriguiana sob

o prisma da psicanálise

 

Marco Aurélio Baggio


Como é bom o doer de velhas penas.
Adoecemos porque não amamos.
O adulto não existe. O homem é um menino perene.
O dinheiro compra até amor sincero.

 

Por meio da criação de dezessete peças, Nelson Rodrigues compassivizou seus infernais demônios, economizou sua psicanálise, escarmentando para o palco toda a sordidez e a excrescência que o habitava.

Da curiosidade infantil indecente, passando pelas tragédias familiares, o homem Nelson Rodrigues se viu assediado pela crônica policial, e pela necessidade de sair da miséria cedo, ainda acossado por um superegóico moralismo sempre fracassado vencido por uma sexualidade trepidante, o que o induziu a cometer as canalhices dos amores infiéis. Anjo infantil de pureza. Visionário de uma sociedade hipócrita em dissolução. Profeta dos subterrâneos. Bandalho honesto. Pornográfico sem palavrão. Quixote em um Rio de Janeiro nos anos dourados na aparência, carcomido e cancerificado por dentro.

Para Nelson Rodrigues, a pureza do amor era tudo, o ideal a ser almejado.

No entanto, sabia ele que o amor era a véspera do pecado e da infidelidade. O amor desperta  a voragem do monstro de olhos verdes do ciúme.

Os dois, o amor e o ciúme, trazem consigo, a seguir, o inferno da possessão, da desconfiança, da querela e da cobrança.

Desse conflito, brotado dos ínferos endógenos do inconsciente, o ser humano torna-se um joguete, um personagem no teatro de sua vida, que o distancia do comando de seu destino. E assim mergulha na torrente dos arquétipos míticos os quais percorrem as inexoráveis trilhas do mortífero, da tragédia.

Primeiro, as quatro peças centradas nos mitos gregos fundantes do Ocidente. 

1-     Álbum de família.

2-    Anjo negro.

3-     Senhora dos afogados.

4-    Dorotéia.

Em  Álbum de família  Nelson Rodrigues trabalha aquilo que em psicanálise se conceitua como sendo o complexo de Édipo, acrescido do descomedimento do incesto. Nessa peça, a forclusão da realidade – Vewerfung – é tão radical e acachapante causando a exterminação da família e a loucura de D. Senhorinha.  “Nonô me chama – vou para sempre.”

Anjo negro”, de 1947, é talvez a mais cruel e sombria obra de Nelson Rodrigues. Ismael usa do mecanismo da negação consciente da realidade (Verneinung) de sua negritude para acionar a atuação, passando ao ato de casar-se com Virginia, mulher branca. Torna-se cúmplice dessa, assassina de seus três filhos. Ana Maria branca, é cegada para não ver o negro Ismael que se encerra em um autismo no quarto que é seu túmulo. Amaldiçoado pela mãe, cumpre a sina de, numa tentativa patológica, procurar retornar ao ventre da mãe.

A mesma temática ressurge em “Senhora dos afogados”. O núcleo da ação dramática é dado pelo desejo de Moema ficar só com seu pai. Eliminados irmãos, irmãs e a mãe, Moema perde o reflexo da própria imagem diante do espelho, simbolizando a perda de sua identidade. No instante da vitória de seu desejo incestuoso, em um espetacular revertério, que é a marca do teatrólogo, Misael, o pai, morre. Moema fica com sua solidão, imersa na insanidade da loucura. Mais uma vez constatamos a forclusão da realidade, a Verwerfung, operando, soberana. Causando o devastador descarrilamento no psiquismo do personagem.

Dorotéia é a complexa, enigmática e mítica peça desse “Tarado de suspensório”. Reativa o mito grego das Eríneas e das Parcas, predecessoras das Fúrias romanas. Mulheres mitológicas que protegem a ordem natural e social do mundo incipiente em civilização – primitivo –, evitando e regrando a intromissão fertilizadora do agente masculino. Este é capaz de propiciar a orgia – o orgasmo – , mas pode induzir a desmesura, a esbórnia e a arrogância – hybris.

D. Flávia, Carmelita e Maura vivem o recalque - Verdrangung – do masculino, reprimindo em seu inconsciente o significante do falo masculino. Para tal, permanecem em vigília constante, evitando dormir, logo sonhar com o desejo do sexo compartido. Sua atitude acarreta sua desumanização crescente, acompanhado de degradação e de apodrecimento do corpo.

Freud ensinou que a repressão cria duas realidades não conviventes no psiquismo. Nesse não há duvida, daí não se deixar pronunciar o MAS que principiaria por abalar as até então certezas inexpugnáveis que mantém excluídas de seu campo psíquico o novo e o masculino.

A chegada da prostituta Dorotéia acarreta a subversão nesse universo de mulheres desfeminilizadas,  que vivem sob a égide da pulsão de morte.

Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico, entendia de carpintaria teatral. Introduz singelos e significativos objetos em cena.

O jarro lembra a assepsia feminina nos prostíbulos.

As botas representam a intrusiva penetração do macho no desvitalizado âmbito de fêmeas de há muito abandonadas.

A náusea traduz a absoluta aversão da carnalidade dessas mulheres ao homem e é a manifestação fisiológica inversa do orgasmo.

As chagas são o câncer arruinante dos corpos e da beleza que negam – Verneinung – a feminilidade.

O tricô é o emblema de prosaica atividade feminil de senhoras de correto proceder,  já destituidas de quaisquer pretensões voluptuosas no campo amoroso.

O apelo à feiura e ao aborto são insinuantes marcas,  marcando a vigência da pulsão de morte que vigora nesse espaço atemporal.

Dorotéia é a mais emblemática de suas peças. Dorotéia, o “presente de Deus”, é a evidencia de que o apodrecimento existencial é certo quando a pessoa se deixa capturar por periclitadas trilhas perversas.

Dentre as cinco peças psicológicas, “ Vestido de noiva” é aquela que inovou o Teatro brasileiro e consagrou em definitivo seu autor. Grangeou capital intelectual para o fracasso e a controvérsia gerada por dúzia de peças seguintes, sobrevivendo a pulsão epistemofilica e a pessoa de Nelson, atrevido, desafiante, altaneiro, pelas décadas seguintes: de 1943 até sua morte em dezembro de 1980.

Em “Vestido de noiva” o iniciante dramaturgo coloca em mescolância, em cena, a realidade do atropelamento de Alaíde, sua cirurgia; a memória dos feitos  de Madame Clessy e a fantasia do que lhe sucederia depois.

Frases curtas, diálogos entrecortados, flashbacks, jogos de luzes, mudanças de cenários, criavam um teatro inovador, que obrigava a plateia a se deixar mobilizar em seus elementos inconscientes.

Nascia um estilo de teatro fascinante, provocativo, catártico e...desagradável. Foi ai que Nelson Rodrigues pode confirmar sua afirmação de que toda a unanimidade de conduta e de percepção burguesa é burra.

Em 1943 “ Vestido de noiva” escande, primorosamente, a tripartição do Ego de Alaíde, numa tentativa agônica de armar solução à pluralidade de tendências instintivas indomáveis, tais como o amor, a competição, a rivalidade, a traição, o ciúme, a inveja, a má fortuna e a vingança, que em seu corpo e em seu psiquismo, tinham morada.

Entre as Tragédias Cariocas I, situa-se “A falecida”.

Repórter policial de um Rio de janeiro dividido em Zona Sul, rica e resolvida e Zona Norte, pobre, esforçada, atrasada, Nelson situou a peça na Zona Norte, colocando como protagonistas suburbanos frustrados e fracassados que, de há muito, perderam o comando de seus destinos. Os personagens são eivados de pathos, simples encarnações de forças instintivas vagando à deriva das circunstâncias.

Zulmira, tuberculosa, pobre, desesperançada, infeliz no casamento, quer ter um enterro magnífico de 25 contos de reis. Instrui o marido inútil, Tuninho, buscar o dinheiro com Pimentel, dono de frotas de lotação, ex-amante. Ele o faz, obtém o dinheiro e  consegue extorquir até mais para o sétimo dia. Descobre que Zulmira e Pimentel foram amantes.  Dá-lhe um enterro miserável de 400 mil reis e gasta o dinheiro na farra com os amigos, no jogo no Maracanã e em apostas no jogo.

Perdoa-me por me traíres” é, de todos, o título mais desconcertante.

 “ Flor da obsessão”, Nelson era maniado com a fidelidade conjugal. Casado com Elza, vivia o drama de quase todo homem, de que a sexualidade masculina se sente constrangida e manietada no valioso vínculo do casamento. Moralista, católico, viveu torturado por sua volúpia de apaixonar-se fácil por outras várias mulheres. Queria ser fiel e não conseguia.

Exigia fidelidade de suas personagens sabendo o quanto elas também não se mantinham nos padrões e, assim, as entregava a Nêmesis, a justiceira distributiva, que as encaminhava ao juízo das Moiras e de Temis, rumo aos destino fatal.

Perdoa-me por me traíres” é um ensandecido festival de delírios de ciúme. Para Freud, o ciúme do parceiro amoroso é uma projeção do desejo reprimido do ciumento de cometer aquilo que atribui, imaginária ou realísticamente, ao outro.

Em 1957, data da peça, a vilania dos amores clandestinos ou incestuosos era escoltada pelos pactos de suicídio. O aborto era abominável. Hoje, em 2012, tais temas perderam pregnância. A violência gratuita, a estupidez relacional e a corrupção generalizada são temas que mereceriam da ironia e da genialidade de Nelson Rodrigues arguto tratamento dramático. Nelson, primoroso, que já se insinuava na venalidade e hipocrisia de seus personagens.

Glorinha, adolescente órfã criada pelo Tio Raul começa a frequentar a casa de tolerância de Madame Luba. Raul amara e matara Judite, mãe de Glorinha, uma mulher devassa. Propõe-se matar Glorinha.

Seu irmão Gilberto, marido de Judite, percebe-se o indutor da traição de Judite, enlouquecido que está, vê alucinado, amantes da esposa escorrer pelas paredes. Exclama : 

 “- Perdoa-me por me traíres.”

Essa paradoxal expressão quer dizer:

“Perdoa-me porque estou em tamanha falta para com você, Judite meu amor, tanto que te induzi a me trair.”

O amor-paixão costuma ser escoltado pela desconfiança e o ciúme, a tal ponto que o amante mergulha no monstro verde do delírio celotípico, delírio de ciúme. Chico Buarque usou o tema em “Mil perdões”.

“Te perdoo

Por fazeres mil perguntas

Que em vidas que andam juntas

Ninguém faz.

Te perdoo porque choras

Quando eu choro de rir

Te perdoo por te trair. “

Chico inverte o sentido do título da peça de Nelson.

Este emite a lapidar  assertiva:

“Amar é ser fiel a quem nos trai!”

Raul possui a tara, o secreto gozo de que a mulher o traisse: primeiro Judite, agora Glorinha .“Sou traido por uma mulher que eu amo.”

Supremo gozo mortífero para o paranoico!

Glorinha propõe a Raul que os dois se envenenem e morram juntos. Ele ingere. Ela finge tomar. Enquanto Raul agoniza, ela, agora Pola Negri, confirma encontro com o deputado Jubileu de Almeida no lupanar de Madame Luba.

“Os sete gatinhos” é a história do contínuo pai de cinco filhas. Prostitui as quatro maiores no anseio de preservar a caçula para um casamento burguês. Mas esta se entrega a um conquistador barato. Noronha revoltado, passa a agenciar o lenocínio das próprias filhas. Estas resolvem mata-lo.

“O Boca de Ouro” de 1959, é uma imersão de Nelson Rodrigues no submundo carioca. Boca, bicheiro milionário, troca sua dentadura por outra toda feita de ouro para realizar um sonho de menino. Assassinado, Caveirinha repórter, colhe depoimentos de Guiomar que, primeiro o descreve como facínora. Arrepende-se e o descreve como pessoa boa e generosa.

Nelson avalia que a mitologia suburbana criada em torno do Boca é uma sequência incongruente de versões criadas por Dona Guigui e publicada pela imprensa.  Jornalista de escol, Nelson sabia o quanto a imprensa podia ser venal e maligna.

“O Beijo no Asfalto” é sua peça de inserção na sublimidade do amor.

Amado Ribeiro repórter, viu um homem atropelado por um lotação. Um indivíduo aproxima-se do moribundo, segurou sua cabeça e deu-lhe um beijo na boca. Quem são aqueles homens? Qual a relação eles mantinham? Amado e o delegado armam um relação homossexual entre Arandir e o morto. As denuncias no jornal são cada vez mais sórdidas e cruéis. Desagrega-se a família. Arandir é assassinado por Aprígio, o sogro, que secretamente o amava. Amado, Cunha e Aprígio, incapazes de conter sua homossexualidade  latente, utilizam a cena do beijo para imolar Arandir.

“ Não me arrependo...foi a coisa mais sublime que já cometi. Atender ao desejo de um moribundo...”

Conspiram, denigrem e corrompem o belo gesto humano de Arandir diante da morte.

Foi com “Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Resende” que surgiu um certo otimismo quanto a possibilidade de um melhor destino terreno para o homem, a partir da tomada de atitudes corretas e sensatas.

Na peça, mostra-se que não há canalha integral. Edgar não se deixa corromper por seu patrão por 5 milhões de cruzeiros para que se case com sua filha recém currada por um bando de negros. Prefere ficar com Ritinha, prostituta, que encontra redenção em seu amor por Edgar.

“Mineiro só é solidário no câncer”, frase lapidar de Otto Lara Resende, repetida na peça, é o mote do qual se serve Nelson para avisar o já sabido desde o Leviatã, de Hobbes: Os homens adoram entredevoram-se e, raramente, nem no câncer são solidários.

Ritinha e Edgar terminam correndo, descalços em direção ao mar, numa figura de recuperação da pureza perdida.

A violência perpassa pela vida das personagens de Nelson Rodrigues. Assume-se como um Coélet, um Pregador, procurando exorcizar o homem comum de seu destino banal.

Depois de 13 anos de  interegno, em 1974 surge novidade. A peça “Anti-Nelson Rodrigues” contém todos ingredientes comuns à sua dramaturgia. Agora combinados com razoável dose de humor. Um rico herdeiro psicopata Osvaldinho, é conduzido pela habilidade com que Joyce  vai balizando novos terrenos por onde ele pode deslizar e crescer. Joyce arrosta os riscos de ser corrompida. Contrapondo sua dignidade, anulando a canalhices de Osvaldinho com sua bondade. Ela aceita o jogo de cena sacana de Osvaldinho que, açulado pelo desejo que ela tão bem esgrime, o leva ao aumentar sucessivamente os lances.

“Dr. Osvaldo, desde menina que eu espero por um grande amor...Um amor que continuasse para além da vida e para além da morte”.

Numa dramática reviravolta, Joyce recebe de Osvaldinho polpudo cheque com ele a comprava. Ela rasga-o em pedacinhos, atirando na cara de Osvaldinho, que fica atônito. Dá-lhe bofetadas na cara. Depois, toma seu rosto entre as mãos e, soluçando explicita:

 “Seu idiota, não quero seu dinheiro, quero teu amor”.

Leitor voraz desde a infância, Nelson Rodrigues diz que não leu Freud. Certamente conhecia os conceitos psicanalíticos que na década de quarenta, começaram a circular nos meios cultos. Inconsciente, Id, Ego, mecanismos de defesa, complexo de Édipo, perversão, neurose, incesto, narcisismo, depressão, sonho, imaginação, símbolos, sublimação, comparecem aos borbotões em sua obra.  O fato é que, com sua peças, Nelson Rodrigues foi um escarafunchador do baú , universo conceitual da psicanalise.

Mais que isso: Nelson, com sua dramaturgia, foi um arrombador, um escanchelador de (quase) todos os nichos conceituais da psicanalise freudiana.

Quase não houve nicho, canto, grotão do psiquismo humano que ele não tenha denunciado e  iluminado.

A vida humana, de regra, transita do miserável ao terrível. E os seres guiados por suas insensatezes e por suas desejos em demasia, desmesurados, tendem a escolher, incautamente, os caminhos mais fáceis, quase sempre aqueles que, logo, se revelam mais nefastos.

Os instintos que impelem o homem são polimorfos, plurívocos, exigentes e tendem a busca do prazer em descarga rápida. Na dramaturgia de Nelson, personagens banais rapidamente fazem opções pulsionais em curto-circuito, acarretando a sina de percorrer os circuitos mortíferos do suicídio, do assassinato, do aborto. Enfim, buscam ativamente a própria morte por escape extremo de baixa qualidade para os conflitos que não souberam resolver a tempo e a propósito.

Passados 22 anos de sua morte, após 30 anos de obra concernida e comemorando seu centenário de nascimento, podemos avaliar com maior inserção e com maior argúcia, em plano largo, o verdadeiro valor de sua obra.

Nelson Rodrigues foi um gênio brasileiro, dotado de talento e estro para o teatro. Forjou sua obra apesar da burrice racional.

Suas peças e seus livros são exemplos da imoralidade, da calhordice e da venalidade a nós comum,  bem como a um povo. Nelson não escreveu uma bíblia, talvez dez por cento dela, em sacanagens e hediondices e atrocidades. Retratou o ser humano com toda sua contradição e complexidade, com sua avidez pelo absoluto da felicidade, sendo quase certa para leva-lo ao fracasso existencial.

Nelson Rodrigues possuía um faro para as excrescências e as abominações do homem contemporâneo. O jornalismo e a crônica policial foram fonte perene onde extraia a seiva venenosa de suas peças.

Assim, ele punha em cena um elenco de EUS alimentados pelo leite amargo/azedo da ferocidade humana.  Encanta-se pelos monstros.

“Enchemos o palco de monstros que nos intimidam para manter os nossos contidos, ( recalcados) para deles, ( em catarse e contra-exemplo) nos libertamos.”

É assim que ele acreditava na função terapêutica psicanalítica do teatro.

Evitando que nossos demônios vicejam e pululem por ai.

No teatro do absurdo que ele criou, sem saber ou sabendo, Nelson Rodrigues usou e abusou do mais eficaz e definitivo incisivo elenco de mecanismos de operação psíquicos, que são as quatro formas de negação.

Desde o simples...Não! - partícula de delimitação ou de contradição presente na  fala corrente.  Passando pela negação – Verneinung – negação consciente de uma realidade desagradável. –“ Não quero saber”; - “Não tô nem ai”; -“Nem te ligo”.

Utilizou por demais a repressão ou o recalque – Verdrangung – quando o personagem é consciente do fato mas separa dele o afeto incomodo indecente correlato, mantendo o afeto preso na goela do inconsciente.

Negação da realidade do fato, do afeto, do evento, é mecanismo psicanalítico rápido, barato, e eficaz. O preço é que cria uma falha, um rombo na cadeia significante do individuo.

Negação como mentira, implica em mais negação. Verneinung, negação simples, consciente da existência do recusado. É o substituto intelectual do recalcado.

Na trama teatral, logo o personagem descamba para a recusa da realidade Verleugnung. Que, no entanto, teima em ser reeditada e reconsiderada:  -“ Isso, essa coisa não me serve, não me interessa”

E assim, com frequência o personagem Rodriguiano é compelido ao mais radical tipo de negação, a forclusão – Verwerfung -,  mediante o qual exclui o significante, o fato intolerável de seu campo psíquico. É quando então, imerso em pleno transcurso mortífero do instinto de morte, o personagem enlouquece, mata ou suicida.

Nelson Rodrigues é um ícone   brasileiro. Sua obra possui originalidade, invenção, força.  “Flor da obsessão”, sabia ser necessário repetir para não ser esquecido. Escreveu 17 peças praticamente com as mesmas temáticas para, de um lado, escarmentar seus demônios e, por outro, para firmar-se como dramaturgo maior.  Decifrou o brasileiro.

” É um pé-rapado, com complexo de inferioridade, um narciso as avessas.”

“Cochichamos o elogio e berramos o insulto.”

“ Somos um povo burro”.

“Câncer é falta de amor.”

 “ Como é bom o doer de velhas penas.”

“Até onde saberei ir na minha tarefa de surpreender o burguês com novos detalhes escabrosos? “ diz Nelson.

Nelson e seus personagens não aceitavam carpir e sofrer as perdas que o destino lhe acometiam. Nelson teve lutos demais, rápido demais para elaborar. Suas 17 peças podem ser consideradas tentativas mais ou menos bem/malsucedidas de perlaborar suas perdas. Sua vida transcorreu sem e com estrela.

Acolher a crueldade da perda do objeto querido, pessoa, patrimônio, amor, filho, ideal – que se foi -, é o primeiro imprescindível passo para introjeta-lo dentro de nosso psiquismo, como representação do objeto perdido,  simbolizado como lembrança e, a seguir, como palavra/fala/lamento/discurso.

A palavra é a presença viva de uma negatividade morta distanciada. A palavra/o discurso é o ersatz, a compensação que nos resta diante do objeto morto que se foi.

Nessa esgrima da língua portuguesa, Nelson Rodrigues foi genial!

 

REFERÊNCIAS

1- Baggio, Marco Aurélio. Os Conscertos da Vida – Musica Popular Brasileira. Campinas: Editorial PSY, 1996. 

2- Baggio, Marco Aurélio. O Campo Psíquico no Teatro de Nelson Rodrigues. Hoje em Dia. Belo Horizonte: 24 de agosto de 1989.

3- Baggio, Marco Aurélio. Delírios de Ciúmes. Estado de Minas.  Belo Horizonte: 2 de março de 2002.

4- Baggio, Marco Aurélio. Textos Insinceros – Dorotéia. Contagem: Santa Clara, 2006.

5-Baggio, Marco Aurélio. Compêndio de Psiquiatria. Rio de Janeiro: DiLivros, 2011.

6- Hanns, Luiz. Dicionário Comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. 

 

 
* Psiquiatra. Psicanalista. Escritor. Presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores. E.mail marcoaureliobaggio@yahoo.com.br

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