NELSON
RODRIGUES
A relevância da obra
rodriguiana sob
o prisma da psicanálise
Marco Aurélio
Baggio
Como é bom o doer de velhas penas.
Adoecemos porque não amamos.
O adulto não existe. O homem é um menino perene.
O dinheiro compra até amor sincero.
Por meio da criação de dezessete peças,
Nelson Rodrigues compassivizou seus infernais demônios, economizou sua
psicanálise, escarmentando para o palco toda a sordidez e a excrescência que o
habitava.
Da curiosidade infantil indecente, passando
pelas tragédias familiares, o homem Nelson Rodrigues se viu assediado pela
crônica policial, e pela necessidade de sair da miséria cedo, ainda acossado
por um superegóico moralismo sempre fracassado vencido por uma sexualidade
trepidante, o que o induziu a cometer as canalhices dos amores infiéis. Anjo
infantil de pureza. Visionário de uma sociedade hipócrita em dissolução.
Profeta dos subterrâneos. Bandalho honesto. Pornográfico sem palavrão. Quixote
em um Rio de Janeiro nos anos dourados na aparência, carcomido e cancerificado
por dentro.
Para Nelson Rodrigues, a pureza do amor era
tudo, o ideal a ser almejado.
No entanto, sabia ele que o amor era a
véspera do pecado e da infidelidade. O amor desperta a voragem do monstro de olhos verdes do ciúme.
Os dois, o amor e o ciúme, trazem consigo, a
seguir, o inferno da possessão, da desconfiança, da querela e da cobrança.
Desse conflito, brotado dos ínferos endógenos
do inconsciente, o ser humano torna-se um joguete, um personagem no teatro de
sua vida, que o distancia do comando de seu destino. E assim mergulha na
torrente dos arquétipos míticos os quais percorrem as inexoráveis trilhas do
mortífero, da tragédia.
Primeiro, as quatro peças centradas nos mitos
gregos fundantes do Ocidente.
1-
Álbum de família.
2-
Anjo negro.
3-
Senhora dos afogados.
4-
Dorotéia.
Em Álbum
de família Nelson Rodrigues
trabalha aquilo que em psicanálise se conceitua como sendo o complexo de Édipo,
acrescido do descomedimento do incesto. Nessa peça, a forclusão da realidade – Vewerfung
– é tão radical e acachapante causando a exterminação da família e a loucura de
D. Senhorinha. “Nonô me chama – vou
para sempre.”
“Anjo negro”, de 1947, é talvez a mais
cruel e sombria obra de Nelson Rodrigues. Ismael usa do mecanismo da negação
consciente da realidade (Verneinung) de sua negritude para acionar a
atuação, passando ao ato de casar-se com Virginia, mulher branca. Torna-se
cúmplice dessa, assassina de seus três filhos. Ana Maria branca, é cegada para
não ver o negro Ismael que se encerra em um autismo no quarto que é seu túmulo.
Amaldiçoado pela mãe, cumpre a sina de, numa tentativa patológica, procurar
retornar ao ventre da mãe.
A mesma temática ressurge em “Senhora dos
afogados”. O núcleo da ação dramática é dado pelo desejo de Moema ficar só
com seu pai. Eliminados irmãos, irmãs e a mãe, Moema perde o reflexo da própria
imagem diante do espelho, simbolizando a perda de sua identidade. No instante
da vitória de seu desejo incestuoso, em um espetacular revertério, que é a
marca do teatrólogo, Misael, o pai, morre. Moema fica com sua solidão, imersa
na insanidade da loucura. Mais uma vez constatamos a forclusão da realidade, a Verwerfung,
operando, soberana. Causando o devastador descarrilamento no psiquismo do
personagem.
Dorotéia é a complexa, enigmática e
mítica peça desse “Tarado de suspensório”. Reativa o mito grego das Eríneas e
das Parcas, predecessoras das Fúrias romanas. Mulheres mitológicas que protegem
a ordem natural e social do mundo incipiente em civilização – primitivo –,
evitando e regrando a intromissão fertilizadora do agente masculino. Este é
capaz de propiciar a orgia – o orgasmo – , mas pode induzir a desmesura, a
esbórnia e a arrogância – hybris.
D. Flávia, Carmelita e Maura vivem o recalque
- Verdrangung – do masculino, reprimindo em seu inconsciente o
significante do falo masculino. Para tal, permanecem em vigília constante,
evitando dormir, logo sonhar com o desejo do sexo compartido. Sua atitude
acarreta sua desumanização crescente, acompanhado de degradação e de
apodrecimento do corpo.
Freud ensinou que a repressão cria duas
realidades não conviventes no psiquismo. Nesse não há duvida, daí não se deixar
pronunciar o MAS que principiaria por abalar as até então certezas
inexpugnáveis que mantém excluídas de seu campo psíquico o novo e o masculino.
A chegada da prostituta Dorotéia acarreta a
subversão nesse universo de mulheres desfeminilizadas, que vivem sob a égide da pulsão de morte.
Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico,
entendia de carpintaria teatral. Introduz singelos e significativos objetos em
cena.
O jarro lembra a assepsia feminina nos
prostíbulos.
As botas representam a intrusiva
penetração do macho no desvitalizado âmbito de fêmeas de há muito abandonadas.
A náusea traduz a absoluta aversão da
carnalidade dessas mulheres ao homem e é a manifestação fisiológica inversa do
orgasmo.
As chagas são o câncer arruinante dos
corpos e da beleza que negam – Verneinung – a feminilidade.
O tricô é o emblema de prosaica
atividade feminil de senhoras de correto proceder, já destituidas de quaisquer pretensões voluptuosas no campo
amoroso.
O apelo à feiura e ao aborto
são insinuantes marcas, marcando a
vigência da pulsão de morte que vigora nesse espaço atemporal.
Dorotéia é a mais emblemática de suas peças.
Dorotéia, o “presente de Deus”, é a evidencia de que o apodrecimento
existencial é certo quando a pessoa se deixa capturar por periclitadas trilhas
perversas.
Dentre as cinco peças psicológicas, “ Vestido
de noiva” é aquela que inovou o Teatro brasileiro e consagrou em definitivo
seu autor. Grangeou capital intelectual para o fracasso e a controvérsia gerada
por dúzia de peças seguintes, sobrevivendo a pulsão epistemofilica e a pessoa
de Nelson, atrevido, desafiante, altaneiro, pelas décadas seguintes: de 1943
até sua morte em dezembro de 1980.
Em “Vestido de noiva” o iniciante
dramaturgo coloca em mescolância, em cena, a realidade do atropelamento de
Alaíde, sua cirurgia; a memória dos feitos
de Madame Clessy e a fantasia do que lhe sucederia depois.
Frases curtas, diálogos entrecortados, flashbacks,
jogos de luzes, mudanças de cenários, criavam um teatro inovador, que obrigava
a plateia a se deixar mobilizar em seus elementos inconscientes.
Nascia um estilo de teatro fascinante,
provocativo, catártico e...desagradável. Foi ai que Nelson Rodrigues pode
confirmar sua afirmação de que toda a unanimidade de conduta e de percepção
burguesa é burra.
Em 1943 “ Vestido de noiva” escande,
primorosamente, a tripartição do Ego de Alaíde, numa tentativa agônica de armar
solução à pluralidade de tendências instintivas indomáveis, tais como o amor, a
competição, a rivalidade, a traição, o ciúme, a inveja, a má fortuna e a
vingança, que em seu corpo e em seu psiquismo, tinham morada.
Entre as Tragédias Cariocas I, situa-se “A
falecida”.
Repórter policial de um Rio de janeiro
dividido em Zona Sul, rica e resolvida e Zona Norte, pobre, esforçada,
atrasada, Nelson situou a peça na Zona Norte, colocando como protagonistas
suburbanos frustrados e fracassados que, de há muito, perderam o comando de
seus destinos. Os personagens são eivados de pathos, simples encarnações
de forças instintivas vagando à deriva das circunstâncias.
Zulmira, tuberculosa, pobre, desesperançada,
infeliz no casamento, quer ter um enterro magnífico de 25 contos de reis.
Instrui o marido inútil, Tuninho, buscar o dinheiro com Pimentel, dono de
frotas de lotação, ex-amante. Ele o faz, obtém o dinheiro e consegue extorquir até mais para o sétimo
dia. Descobre que Zulmira e Pimentel foram amantes. Dá-lhe um enterro miserável de 400 mil reis e gasta o dinheiro na
farra com os amigos, no jogo no Maracanã e em apostas no jogo.
“Perdoa-me por me traíres” é, de
todos, o título mais desconcertante.
“
Flor da obsessão”, Nelson era maniado com a fidelidade conjugal. Casado com
Elza, vivia o drama de quase todo homem, de que a sexualidade masculina se
sente constrangida e manietada no valioso vínculo do casamento. Moralista,
católico, viveu torturado por sua volúpia de apaixonar-se fácil por outras
várias mulheres. Queria ser fiel e não conseguia.
Exigia fidelidade de suas personagens sabendo
o quanto elas também não se mantinham nos padrões e, assim, as entregava a Nêmesis,
a justiceira distributiva, que as encaminhava ao juízo das Moiras e de Temis,
rumo aos destino fatal.
“Perdoa-me por me traíres” é um
ensandecido festival de delírios de ciúme. Para Freud, o ciúme do parceiro
amoroso é uma projeção do desejo reprimido do ciumento de cometer aquilo que
atribui, imaginária ou realísticamente, ao outro.
Em 1957, data da peça, a vilania dos amores
clandestinos ou incestuosos era escoltada pelos pactos de suicídio. O aborto
era abominável. Hoje, em 2012, tais temas perderam pregnância. A violência
gratuita, a estupidez relacional e a corrupção generalizada são temas que
mereceriam da ironia e da genialidade de Nelson Rodrigues arguto tratamento
dramático. Nelson, primoroso, que já se insinuava na venalidade e hipocrisia de
seus personagens.
Glorinha, adolescente órfã criada pelo Tio
Raul começa a frequentar a casa de tolerância de Madame Luba. Raul amara e
matara Judite, mãe de Glorinha, uma mulher devassa. Propõe-se matar Glorinha.
Seu irmão Gilberto, marido de Judite,
percebe-se o indutor da traição de Judite, enlouquecido que está, vê alucinado,
amantes da esposa escorrer pelas paredes. Exclama :
“-
Perdoa-me por me traíres.”
Essa paradoxal expressão quer dizer:
“Perdoa-me porque estou em tamanha falta para
com você, Judite meu amor, tanto que te induzi a me trair.”
O amor-paixão costuma ser escoltado pela
desconfiança e o ciúme, a tal ponto que o amante mergulha no monstro verde do
delírio celotípico, delírio de ciúme. Chico Buarque usou o tema em “Mil
perdões”.
“Te perdoo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz.
Te perdoo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdoo por te trair. “
Chico inverte o sentido do título da peça de
Nelson.
Este emite a lapidar assertiva:
“Amar é ser fiel a quem nos trai!”
Raul possui a tara, o secreto gozo de que a
mulher o traisse: primeiro Judite, agora Glorinha .“Sou traido por uma mulher
que eu amo.”
Supremo gozo mortífero para o paranoico!
Glorinha propõe a Raul que
os dois se envenenem e morram juntos. Ele ingere. Ela finge tomar. Enquanto
Raul agoniza, ela, agora Pola Negri, confirma encontro com o deputado Jubileu
de Almeida no lupanar de Madame Luba.
“Os sete gatinhos” é a
história do contínuo pai de cinco filhas. Prostitui as quatro maiores no anseio
de preservar a caçula para um casamento burguês. Mas esta se entrega a um
conquistador barato. Noronha revoltado, passa a agenciar o lenocínio das próprias
filhas. Estas resolvem mata-lo.
“O Boca de Ouro” de 1959, é
uma imersão de Nelson Rodrigues no submundo carioca. Boca, bicheiro milionário,
troca sua dentadura por outra toda feita de ouro para realizar um sonho de
menino. Assassinado, Caveirinha repórter, colhe depoimentos de Guiomar que,
primeiro o descreve como facínora. Arrepende-se e o descreve como pessoa boa e
generosa.
Nelson avalia que a
mitologia suburbana criada em torno do Boca é uma sequência incongruente de
versões criadas por Dona Guigui e publicada pela imprensa. Jornalista de escol, Nelson sabia o quanto a
imprensa podia ser venal e maligna.
“O Beijo no Asfalto” é sua
peça de inserção na sublimidade do amor.
Amado Ribeiro repórter, viu
um homem atropelado por um lotação. Um indivíduo aproxima-se do moribundo,
segurou sua cabeça e deu-lhe um beijo na boca. Quem são aqueles homens? Qual a
relação eles mantinham? Amado e o delegado armam um relação homossexual entre
Arandir e o morto. As denuncias no jornal são cada vez mais sórdidas e cruéis.
Desagrega-se a família. Arandir é assassinado por Aprígio, o sogro, que
secretamente o amava. Amado, Cunha e Aprígio, incapazes de conter sua
homossexualidade latente, utilizam a
cena do beijo para imolar Arandir.
“ Não me arrependo...foi a
coisa mais sublime que já cometi. Atender ao desejo de um moribundo...”
Conspiram, denigrem e
corrompem o belo gesto humano de Arandir diante da morte.
Foi com “Bonitinha, mas
ordinária ou Otto Lara Resende” que surgiu um certo otimismo quanto a
possibilidade de um melhor destino terreno para o homem, a partir da tomada de
atitudes corretas e sensatas.
Na peça, mostra-se que não
há canalha integral. Edgar não se deixa corromper por seu patrão por 5 milhões
de cruzeiros para que se case com sua filha recém currada por um bando de
negros. Prefere ficar com Ritinha, prostituta, que encontra redenção em seu
amor por Edgar.
“Mineiro só é solidário no
câncer”, frase lapidar de Otto Lara Resende, repetida na peça, é o mote do qual
se serve Nelson para avisar o já sabido desde o Leviatã, de Hobbes: Os
homens adoram entredevoram-se e, raramente, nem no câncer são solidários.
Ritinha e Edgar terminam
correndo, descalços em direção ao mar, numa figura de recuperação da pureza
perdida.
A violência perpassa pela
vida das personagens de Nelson Rodrigues. Assume-se como um Coélet, um
Pregador, procurando exorcizar o homem comum de seu destino banal.
Depois de 13 anos de interegno, em 1974 surge novidade. A peça
“Anti-Nelson Rodrigues” contém todos ingredientes comuns à sua dramaturgia.
Agora combinados com razoável dose de humor. Um rico herdeiro psicopata
Osvaldinho, é conduzido pela habilidade com que Joyce vai balizando novos terrenos por onde ele pode deslizar e
crescer. Joyce arrosta os riscos de ser corrompida. Contrapondo sua dignidade,
anulando a canalhices de Osvaldinho com sua bondade. Ela aceita o jogo de cena
sacana de Osvaldinho que, açulado pelo desejo que ela tão bem esgrime, o leva
ao aumentar sucessivamente os lances.
“Dr. Osvaldo, desde menina
que eu espero por um grande amor...Um amor que continuasse para além da vida e
para além da morte”.
Numa dramática reviravolta,
Joyce recebe de Osvaldinho polpudo cheque com ele a comprava. Ela rasga-o em
pedacinhos, atirando na cara de Osvaldinho, que fica atônito. Dá-lhe bofetadas
na cara. Depois, toma seu rosto entre as mãos e, soluçando explicita:
“Seu idiota, não quero seu dinheiro, quero teu amor”.
Leitor voraz desde a
infância, Nelson Rodrigues diz que não leu Freud. Certamente conhecia os
conceitos psicanalíticos que na década de quarenta, começaram a circular nos
meios cultos. Inconsciente, Id, Ego, mecanismos de defesa, complexo de Édipo,
perversão, neurose, incesto, narcisismo, depressão, sonho, imaginação,
símbolos, sublimação, comparecem aos borbotões em sua obra. O fato é que, com sua peças, Nelson
Rodrigues foi um escarafunchador do baú , universo conceitual da psicanalise.
Mais que isso: Nelson, com
sua dramaturgia, foi um arrombador, um escanchelador de (quase) todos os nichos
conceituais da psicanalise freudiana.
Quase não houve nicho,
canto, grotão do psiquismo humano que ele não tenha denunciado e iluminado.
A vida humana, de regra,
transita do miserável ao terrível. E os seres guiados por suas insensatezes e
por suas desejos em demasia, desmesurados, tendem a escolher, incautamente, os
caminhos mais fáceis, quase sempre aqueles que, logo, se revelam mais nefastos.
Os instintos que impelem o
homem são polimorfos, plurívocos, exigentes e tendem a busca do prazer em
descarga rápida. Na dramaturgia de Nelson, personagens banais rapidamente fazem
opções pulsionais em curto-circuito, acarretando a sina de percorrer os
circuitos mortíferos do suicídio, do assassinato, do aborto. Enfim, buscam
ativamente a própria morte por escape extremo de baixa qualidade para os
conflitos que não souberam resolver a tempo e a propósito.
Passados 22 anos de sua
morte, após 30 anos de obra concernida e comemorando seu centenário de
nascimento, podemos avaliar com maior inserção e com maior argúcia, em plano
largo, o verdadeiro valor de sua obra.
Nelson Rodrigues foi um gênio
brasileiro, dotado de talento e estro para o teatro. Forjou sua obra apesar da
burrice racional.
Suas peças e seus livros são
exemplos da imoralidade, da calhordice e da venalidade a nós comum, bem como a um povo. Nelson não escreveu uma
bíblia, talvez dez por cento dela, em sacanagens e hediondices e atrocidades.
Retratou o ser humano com toda sua contradição e complexidade, com sua avidez
pelo absoluto da felicidade, sendo quase certa para leva-lo ao fracasso
existencial.
Nelson Rodrigues possuía um
faro para as excrescências e as abominações do homem contemporâneo. O
jornalismo e a crônica policial foram fonte perene onde extraia a seiva
venenosa de suas peças.
Assim, ele punha em cena um
elenco de EUS alimentados pelo leite amargo/azedo da ferocidade humana. Encanta-se pelos monstros.
“Enchemos o palco de
monstros que nos intimidam para manter os nossos contidos, ( recalcados) para
deles, ( em catarse e contra-exemplo) nos libertamos.”
É assim que ele acreditava
na função terapêutica psicanalítica do teatro.
Evitando que nossos demônios
vicejam e pululem por ai.
No teatro do absurdo que ele
criou, sem saber ou sabendo, Nelson Rodrigues usou e abusou do mais eficaz e
definitivo incisivo elenco de mecanismos de operação psíquicos, que são as
quatro formas de negação.
Desde o simples...Não!
- partícula de delimitação ou de contradição presente na fala corrente. Passando pela negação – Verneinung – negação consciente de
uma realidade desagradável. –“ Não quero saber”; - “Não tô nem ai”; -“Nem te
ligo”.
Utilizou por demais a
repressão ou o recalque – Verdrangung – quando o personagem é consciente
do fato mas separa dele o afeto incomodo indecente correlato, mantendo o afeto
preso na goela do inconsciente.
Negação da realidade do
fato, do afeto, do evento, é mecanismo psicanalítico rápido, barato, e eficaz.
O preço é que cria uma falha, um rombo na cadeia significante do individuo.
Negação como mentira,
implica em mais negação. Verneinung, negação simples, consciente da
existência do recusado. É o substituto intelectual do recalcado.
Na trama teatral, logo o
personagem descamba para a recusa da realidade Verleugnung. Que, no
entanto, teima em ser reeditada e reconsiderada: -“ Isso, essa coisa não me serve, não me interessa”
E assim, com frequência o
personagem Rodriguiano é compelido ao mais radical tipo de negação, a forclusão
– Verwerfung -, mediante o qual
exclui o significante, o fato intolerável de seu campo psíquico. É quando
então, imerso em pleno transcurso mortífero do instinto de morte, o personagem
enlouquece, mata ou suicida.
Nelson Rodrigues é um
ícone brasileiro. Sua obra possui
originalidade, invenção, força. “Flor
da obsessão”, sabia ser necessário repetir para não ser esquecido. Escreveu 17 peças
praticamente com as mesmas temáticas para, de um lado, escarmentar seus
demônios e, por outro, para firmar-se como dramaturgo maior. Decifrou o brasileiro.
” É um pé-rapado, com
complexo de inferioridade, um narciso as avessas.”
“Cochichamos o elogio e berramos
o insulto.”
“ Somos um povo burro”.
“Câncer é falta de amor.”
“ Como é bom o doer de velhas penas.”
“Até onde saberei ir na
minha tarefa de surpreender o burguês com novos detalhes escabrosos? “ diz
Nelson.
Nelson e seus personagens
não aceitavam carpir e sofrer as perdas que o destino lhe acometiam. Nelson
teve lutos demais, rápido demais para elaborar. Suas 17 peças podem ser
consideradas tentativas mais ou menos bem/malsucedidas de perlaborar suas
perdas. Sua vida transcorreu sem e com estrela.
Acolher a crueldade da perda
do objeto querido, pessoa, patrimônio, amor, filho, ideal – que se foi -, é o
primeiro imprescindível passo para introjeta-lo dentro de nosso psiquismo, como
representação do objeto perdido,
simbolizado como lembrança e, a seguir, como
palavra/fala/lamento/discurso.
A palavra é a presença viva
de uma negatividade morta distanciada. A palavra/o discurso é o ersatz,
a compensação que nos resta diante do objeto morto que se foi.
Nessa esgrima da língua
portuguesa, Nelson Rodrigues foi genial!
REFERÊNCIAS
1- Baggio, Marco Aurélio. Os Conscertos da Vida – Musica
Popular Brasileira. Campinas: Editorial PSY, 1996.
2- Baggio, Marco Aurélio. O Campo Psíquico no Teatro
de Nelson Rodrigues. Hoje em Dia. Belo Horizonte: 24 de
agosto de 1989.
3- Baggio, Marco Aurélio. Delírios de Ciúmes. Estado
de Minas. Belo Horizonte: 2 de
março de 2002.
4- Baggio, Marco Aurélio. Textos Insinceros –
Dorotéia. Contagem: Santa Clara, 2006.
5-Baggio, Marco Aurélio. Compêndio de Psiquiatria. Rio
de Janeiro: DiLivros, 2011.
6- Hanns,
Luiz. Dicionário Comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago,
1996.
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