terça-feira, 2 de abril de 2013

GONÇALVES DIAS - O SABIÁ DO MARANHÃO


GONÇALVES DIAS - O SABIÁ DO MARANHÃO

 

Marco Aurélio Baggio

 

Breve histórico

 

            Antônio Gonçalves Dias, filho do português João Manuel Gonçalves Dias e de sua amásia, a mestiça (cafuza, para alguns autores) Vicência Mendes Ferreira, nasceu em 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, interior do sertão maranhense. Seis anos depois, o pai abandona a mãe para casar-se com uma senhora da sociedade. O menino seria levado para viver com o pai e a madrasta. João Manuel, embora ríspido e seco, gostava do filho. Tirou-o do trabalho e o pôs a estudar latim, francês e filosofia. Por influência do professor que percebeu no aluno uma excepcional inteligência, o pai decidiu levar o filho para completar os estudos na Universidade de Coimbra. Às vésperas da partida para Portugal, João Manuel falece. O filho volta para a companhia da madrasta. O destino, porém, reservava-lhe boa surpresa. Seu professor, com o auxílio do juiz de Direito da comarca e de alguns amigos ricos do pai, convencem Adelaide Ramos de Almeida a cumprir o desejo do marido e enviar o filho para Coimbra. Chegam a oferecer-se para arcar com as despesas, o que a madrasta recusou, assumindo o encargo de enviar o enteado para Portugal. Assim foi feito.

            Não se sabe ao certo a data em que Gonçalves Dias chegou a Portugal, mas é certo que já lá estava em 1839. Após algumas desavenças com a madrasta, a respeito do dinheiro que lhe deveria ser mandado, muito constrangido, o poeta resolve aceitar o auxílio de colegas amigos brasileiros, que se propuseram a financiar-lhe os estudos. Naquela época, havia, na Universidade de Coimbra, três graus para os que se dedicavam aos estudos jurídicos. O de bacharel seria conferido ao final do quarto ano de estudos; o de bacharel formado, no quinto ano, e o de doutor após a defesa de tese. Envolvendo-se em problemas de família, falta a Gonçalves Dias dinheiro para chegar ao quinto ano, ficando, assim com o título de bacharel.

Em janeiro de 1845, Gonçalves Dias embarca de volta ao Brasil, com passagem a ser paga quando aqui chegasse. Tinha 21 anos, algumas poesias e nenhum dinheiro. Vai para Caxias, sua terra de origem, onde tenta estabelecer-se como bacharel em ciências jurídicas e poeta. Devido à situação, política, no entanto, não obtém sucesso.

Mestiço, de traços grosseiros e baixa estatura, beirando 1,50 m, mas bem proporcionado, era simpático e denotava nobreza de caráter. Muito inteligente e arguto, captava o interesse de seus interlocutores.

Insatisfeito com a vida em Caxias e instado pelo amigo Alexandre Teófilo, muda-se para a capital. Em São Luís, fica hospedado na casa do ex-colega de Coimbra. Ali viveu dias de alegria e sucesso, pois seus escritos já o tornaram um autor respeitável.

É ainda este amigo que lhe consegue um emprego no Rio de Janeiro, para onde parte em 14 de junho de 1846, levando seus escritos e um pouco de dinheiro. Auxiliado pelos amigos, dá início à publicação de Primeiros cantos, que vem a público em 1946. Gonçalves Dias passa a frequentar a sociedade, os bailes, as festas, as reuniões literárias.

Certo dia, um amigo entrega-lhe um exemplar da Revista Universal Lisbonense, que traz um artigo de Alexandre Herculano, no qual ele faz uma crítica à obra do poeta brasileiro, lamentando algumas imperfeições da linguagem, do estilo e da métrica. Apesar dessa observação, Herculano, um dos maiores escritores portugueses, reconhece que “Os Primeiros cantos são um belo livro: são inspirações de um grande poeta”. É, pois, uma consagração. Provando que conhece profundamente a língua portuguesa, Gonçalves Dias escreve o extenso poema Sextilhas de Frei Antão, em que emprega largamente o português arcaico.

A sua condição de estudioso da história do Brasil dá-lhe o diploma de sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico. Nessa época, trabalha no texto Sextilhas de Frei Antão, que revela um novo aspecto do talento do autor. É nomeado professor adjunto de latim e secretário de um liceu em Niterói. Nesse meio tempo, continuava com efêmeros namoros. Solicita uma licença ao liceu e emprega-se como redator de debates, no Jornal do Comércio, para o Senado, em 1848. Em 1849, é nomeado professor de latim e história do Brasil no famoso Colégio Pedro II. Continua, porém exercendo as funções de jornalista.

Em 1848, aparecem os Segundos Cantos.

Em 1949, junta-se com os amigos Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo (autor de A moreninha) e criam a Guanabara, revista científica e literária, que continuava a tradição da Niterói e da Minerva Brasiliense. Chamados os três ao Paço Imperial para serem agraciados com o hábito da Ordem da Rosa, o Imperador verificou que Gonçalves Dias não possuía nenhuma medalha, mandou incluir seu nome no final de uma lista de centenas de agraciados. Orgulhoso, o poeta recusou-se a receber a medalha, que lhe entregue, mais tarde, pelos amigos. Desliga-se da revista Guanabara.

Nesse tempo, Gonçalves Dias dedica-se também ao estudo dos indígenas, valorizando-os em seus poemas indianistas. Em Últimos cantos, estão seus melhores poemas indianistas: “I-juca-pirama”, quase que um poema épico, “Marabá” e “Leito de folhas verdes”, em que se destaca também um forte lirismo.

Em 1851, Gonçalves Dias vai, a serviço, às províncias da Bahia, de Alagoas, Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pará. Dirige-se primeiro ao Maranhão, com o objetivo de rever os amigos, sobretudo Alexandre Teófilo. Ao rever Ana Amélia Ferreira do Vale, prima e cunhada do amigo, descobre-se apaixonado pela jovem. Escreve uma carta ao irmão da moça, solicitando-lhe pedir à mãe autorização para se casar com Ana Amélia. Embora o poeta já tivesse grande prestígio no Brasil e em Portugal e ocupasse cargos importantes, Gonçalves Dias, era, porém, mestiço. Era o suficiente para D. Lourença recusar o pedido de casamento da filha. Gonçalves Dias, demonstrando-se homem de caráter e fiel à amizade que a família da moça lhe dedicava, não aceita a proposta da jovem, que também se apaixonara por ele, para que fujam.

Apesar da decepção amorosa, Gonçalves Dias cumpre a missão que lhe foi confiada, enviando ao governo minucioso relatório sobre as condições do ensino nas províncias que visitou. Constata que quase não havia bibliotecas nas cidades que visitou. Ressalta a ausência de escolas normais e o defeito de só prepararem os rapazes para os cursos médico e jurídico, deixando de lado as ciências naturais e matemáticas. Destaca a falta de ensino para os negros escravos e os índios. Ao lado da análise da situação propunha soluções para se resolver o problema das escolas naquelas regiões.

Viajante, desbravador de um Brasil que se queria Império, Gonçalves Dias desgasta sua saúde, empreendendo insalubres viagens ao Norte do Brasil e, também, no estrangeiro. Jamais deixou de produzir versos.

Retornando ao Rio de Janeiro, Gonçalves Dias envolve-se com uma jovem que conhecera tempos atrás. Olímpia Coriolano da Costa era filha do Dr. Cláudio Luís da Costa, médico e membro da Academia de Medicina e do Instituto Histórico. Era, pois, uma família de certa importância na sociedade. Embora não estivesse apaixonado pela moça, três anos mais velha do que ele, Gonçalves Dias, deixa-se levar pela ardilosa Olímpia, com ela se casando, sem, porém, esquecer-se de seu grande amor. Em pouco tempo, a vida do casal se transforma em um inferno. O poeta, havia muito, planejava uma viagem à Europa. Deram-lhe uma licença com vencimentos integrais a fim de que visitasse alguns países e estudasse os métodos do ensino público e pesquisasse documentos relativos à história do Brasil.

Em junho de 1854, Gonçalves Dias, a mulher, já grávida, a cunhada e o sogro embarcam para a Europa, passando por Lisboa. Em seguida, vão para Paris, onde nasce Joana, doente e raquítica, para desgosto do poeta. Voltando a Lisboa, Gonçalves Dias tem um encontro inesperado com Ana Amélia, o que o deixa muito perturbado.  Antes de a mulher engravidar, Gonçalves Dias tinha esperanças de poder separar-se dela, tal a situação em que se encontravam. A gravidez da mulher, porém, frustra seus planos.

Pensando que a vida no Brasil seria melhor para a saúde da filha, Gonçalves Dias providencia o embarque da família para o Rio, permanecendo em Paris. A filha contrai pneumonia e morre logo depois de chegar ao Brasil.

Apesar de ainda apaixonado por Ana Amélia, aquele mestiço de 1,50 m sabia falar bem, era um verdadeiro conquistador e aproveitou bem os quatro anos que permaneceu na Europa. Dentre as suas várias conquistas femininas, destacam-se a belga Celine, de 19 anos, as alemãs Leontina e Natália, as francesas Josephine e Eugénie N. e uma brasileira, Amélia R., que o poeta conheceu em Londres ou Paris, e com quem manteve uma longa ligação. O romance com Eugénie chegou ao conhecimento de Olímpia.

Nos quatro anos que passou na Europa, de 1854 a 1858, Gonçalves Dias cumpriu os encargos que lhe foram cometidos, viajava constantemente e visitou quase todos os países europeus. Sua produção intelectual se resumiu em publicar os Cantos, a primeira parte de Os timbiras e o Vocabulário tupi, tornando-se assim um consagrado escritor para o mundo nacional e o estrangeiro.

Em agosto de 1858, Gonçalves Dias embarca em Southampton, chegando ao Rio em setembro. Logo, vislumbrando a possibilidade de afastar-se da mulher, junta-se aos membros de uma desastrada Comissão Científica, que iria ao norte do Brasil com variadas tarefas de estudos. Ao poeta, incumbia estudar os índios, a sua cultura, seus aspectos físico, moral e social.

De volta ao Rio, Gonçalves Dias passa a viver separado da esposa, embora mantenha contato com a sua família. O poeta nunca teve boa saúde. Além das dores de dentes, que ele atribuía aos charutos, os médicos identificaram a sífilis. Teve febre amarela e malária.

Em abril de 1862, de volta ao Maranhão, parou em Recife, onde procurou um médico, que lhe aconselhou procurar o clima ameno da Europa. Olímpia, sabendo da decisão do marido, de ir para a Europa, vai encontrá-lo em Recife. Lá chegando, verifica que o poeta, apesar de doente e quase sem dinheiro, já havia partido.

Quando o navio em que partira chega a Marselha, verificam que havia um passageiro morto. Como a pessoa que embarcara doente era Gonçalves Dias, por um equívoco, chega ao Brasil a notícia da morte do poeta. D. Pedro II, que presidia a sessão no Instituto Histórico, ao receber a triste novidade, propõe a suspensão dos trabalhos em homenagem ao ilustre consócio. Muitas cerimônias são realizadas na corte e nas províncias, lamentando a morte do maior poeta do Brasil. A notícia só seria desmentida pelo próprio Gonçalves Dias cerca de dois meses depois. O governo decide dar-lhe uma ajuda de custo.

Cada vez mais doente, Gonçalves Dias percorre várias cidades da Europa em busca de cura para várias doenças: laringite, reumatismo, dores na garganta (um especialista lhe amputa a campainha), inflamação crônica do fígado, “desordem” nos pulmões, “perturbações no coração”. Do Brasil, os amigos, preocupados com sua saúde e a situação pecuniária, conseguem-lhe um trabalho na comissão de pesquisa de documentos históricos em Lisboa. Sua saúde, no entanto, piora. Sofre crises de angina, fica sem voz. Vai-se tratar em Aix-les-Bains, na França. Ali, recebe a notícia de que José Bonifácio, o Moço, ministro do Império, havia-o dispensado da comissão. Supõe-se que o ministro, admirador do poeta, tenha atendido ao pedido de Olímpia, que queria o marido de volta ao Brasil, a fim de se tratar.

 

No Rio, os amigos tentam restabelecer a gratificação que o governo lhe havia dado como membro da Comissão Científica. Conseguem pouco. O próprio Imperador contribui com algum recurso. Temendo a proximidade do rigoroso inverno europeu, Gonçalves Dias decide retornar ao Brasil, partindo do Havre. Tão doente estava que Vasconcelos Drumond, ex-ministro do Brasil em Roma e em Lisboa, há alguns anos residindo em Paris, e a esposa resolvem acompanhar o poeta até o porto do Havre, recomendando ao comandante que dispensasse cuidados especiais àquele passageiro. Aliás, o Ville de Boulogne era um pequeno navio, com apenas 12 tripulantes e um único passageiro: Gonçalves Dias. A viagem duraria 53 dias. Partiram no dia 10 de setembro de 1864. No dia 3 de novembro, o navio naufragou já à vista da costa do Maranhão.

Há controvérsias nos depoimentos dos membros da tripulação que se salvaram. Alguns diziam que o poeta já estaria morto quando o navio se afundava. Outros contavam que haviam visto tentando levantar-se do leito. O certo é que seu corpo jamais foi encontrado. Consta que trazia em sua bagagem muitos escritos. Também jamais foram encontrados. Assim desapareceu, aos 41 anos, o maior poeta indianista brasileiro.

 

O indianista romântico

 

            O termo romantismo pode significar um estado de espírito em que predominam certos sentimentos, como a sensibilidade, o subjetivismo, a melancolia. Nesse caso, pode-se encontrar o romantismo desde algumas passagens da Bíblia e das mais antigas expressões humanas até os dias de hoje. Como estilo de uma época, simboliza as características comuns aos autores e artistas de um determinado período da história.

            Vamos então encontrar na obra de Gonçalves Dias não só o espírito romântico individual como também as características que marcaram, no Brasil, a primeira metade do século XIX.

            Conhecendo o italiano, para ler Tasso, Ariosto, Dante e Petrarca no original; traduzindo do alemão Heine e Schiller; e familiarizando-se com os franceses, sobretudo Chateaubriand, Ferdinand Denis, Lamartine, Victor Hugo, Gautier e Musset, sem contar o contato direto que tinha com os expoentes da literatura portuguesa, era natural que o poeta maranhense auferisse daqueles alguma influência que deixará transparecer em sua obra.

            Alguns autores situam Gonçalves Dias no primeiro momento do romantismo brasileiro: a geração nacionalista ou indianista. Em seguida, viriam a geração do “mal-do-século”, simbolizada pelo pessimismo, pela dúvida, pela exaltação da morte, tão bem representada por Álvares de Azevedo, e, por último, a geração condoreira, caracterizada pela poesia de cunho político-social, cujo expoente foi Castro Alves.

            Influenciado pelas ideias românticas que surgiram inicialmente na Alemanha, com Schlegel e Novalis, na Inglaterra, com Walter Scott, Wordsworth e Coleridge, na França, com Madame de Staël, Chateaubriand e Rousseau, este precursor do movimento e chamado “o pai do romantismo”, Gonçalves Dias procura adaptar as novas concepções europeias a sua poesia, que viria a ser considerada por Alexandre Herculano “a verdadeira poesia nacional do Brasil”.

Poeta maior de um incipiente Brasil, Gonçalves Dias percorreu os grandes temas românticos do amor, da natureza, dos sentimentos e de Deus.

Conseguiu o poeta maranhense abranger em sua obra poética todos os aspectos do romantismo, destacando-se a poesia indianista, o nacionalismo, a influência medieval e o lirismo, presente em todas as fases desse movimento.

Conhecedor de nossa cultura indígena, introduziu o mito do bom e do valoroso guerreiro selvagem, cujas raízes já despontavam em Rousseau, poematizando sua cultura, seus hábitos e sua tendência belicosa. O seu índio é, porém, um ser idealizado. Volta-se o poeta para os nossos indígenas, assim como os europeus se inspiram nos seus valorosos cavaleiros medievais. É a Idade Média a sua fonte de inspiração. No Brasil, não houve uma Idade Medieval, que pudesse inspirar o poeta. O índio revela-se então um cavaleiro medieval, com não só com físicos mas também com caráter e moral semelhantes aos de Ivanhoé, dos cavaleiros da Távola Redonda e de outros que ilustram a poesia e os romances do Velho Mundo.

A primeira metade do século XIX é também uma época de valorização e de auto-afirmação de uma nação que se inicia. D. Pedro I, em 1822, realiza a aspiração de um povo que, desde 1808, vinha tentando assumir características próprias. Gonçalves Dias, conhecedor desse momento histórico, retrata-o também em sua poesia. O índio é o elemento nacional que deve ser valorizado e aclamado como o herói brasileiro, tal como aqueles heróis europeus que lutaram para a formação da nacionalidade de seus países. Busca-se assim o passado histórico, desenvolvendo-se o sentimento de nacionalismo e a exaltação da natureza.

Não é Gonçalves Dias o primeiro a tratar do índio brasileiro. Pero Vaz Caminha, em sua correspondência ao rei português, já faz referências às belas indígenas. É, porém, o poeta maranhense, o primeiro a dar vida e características próprias ao índio brasileiro. Sua poesia indianista é a mais importante da literatura brasileira.

Gonçalves Dias nasceu com estro para a poesia, poematizando o índio e sua cultura guerreira. Rapsodo, firmou o tipo do homem-brasileiro-índio com autoridade. Cultuando o aborígene da terra brasileira como o bom selvagem, assinalou a sua avidez pela guerra e sua cultura de morte. As tribos viviam em guerra permanente por instinto, em um infinito território.

Retardatário de um contato com as remanescentes tribos indígenas brasileiras, conhecedor dos hábitos, costumes, adereços e rituais, descreve a natureza natural de nossos indígenas, funcionando pela lógica de imanência da honra e da glória na guerreira matança de seus inimigos semelhantes.

Na poesia indianista de Gonçalves Dias, encontram-se também elementos nacionalistas e líricos. É no indianismo que esse poeta atinge o ápice de sua obra. Comparado ao índio de José de Alencar, o de Gonçalves Dias é mais próximo da realidade. Dentre as poesias indianistas, destacam-se “O canto do guerreiro”, “O canto do piaga” (piaga = pajé), em Primeiros cantos; “I-juca-pirama”, “Leito de folhas verdes”, “Marabá”, “A canção do tamoio”, em Últimos cantos; “Tabira”, em Segundos cantos; e o longo poema de características épicas Os timbiras, que restou inacabado.

Conhecedor do ritmo e da cadência dos tambores nas cerimônias indígenas, Gonçalves Dias transfere para seus versos a melodia típica das marchas de combate e do rufar dos tambores aborígenes. Tal feito ele o consegue conferindo a sua poesia a musicalidade típica dos cerimoniais indígenas, da preparação para a guerra, dos rituais de sacrifícios dos inimigos. Para tanto, utiliza-se dos recursos da métrica, que tão bem conhecia, fato embora negado por Herculano, da utilização da redondilha maior, da redondilha menor, do hendecassílabo. Preferia, porém, a redondilha maior e o decassílabo, alternando neste as pausas na quarta e décima sílabas e na sexta e décima sílabas, conforme o seu objetivo naquele poema. A recorrência dos ritmos de marcha e de combate na poesia indianista de Gonçalves é um dos traços marcantes de sua poesia.

 

“I-Juca-Pirama” (aquele que deve ritualmente morrer, o que é digno de ser morto) é um poemeto, em parte narrativo, em que se destacam os valores morais do índio brasileiro, a sua lealdade e confiança no adversário. Trata da história de um velho guerreiro que amaldiçoa o filho, pensando que ele havia transgredido as normas de sua tribo. A elasticidade dos ritmos vem cadenciando por toda a narração. É um dos cumes da poética brasileira. Aprisionado pelos inimigos, os valentes timbiras, que já se preparam para sacrificá-lo, ao valente guerreiro tupi é dada a oportunidade de dizer quem é. Conta ele a sua história, que comove os inimigos.

 

“Meu canto de morte,

Guerreiros, ouvi;

Sou filho das selvas,

Nas selvas cresci.

Guerreiros, descendo

da tribo Tupi”.

 

Ao terminar, pede-lhes que o soltem para que possa salvar o velho e cego pai, e depois voltará para morrer, conforme os rituais timbiras. Assim lhe é concedido tal favor. O pai, vendo o filho de volta, acredita ter ele se humilhado perante a morte:

 

“Tu choraste em presença da morte?

Na presença de estranhos choraste?

Não descende o cobarde do forte;

Pois choraste, meu filho não és. [...]”.

 

Ao final, esclarecidas e provadas as palavras do jovem guerreiro, prevalecem a coragem e a honra do índio tupi, que é aclamado como herói e amigo da tribo timbira.

Nas entrelinhas, sem querer certamente, Gonçalves Dias, desmitifica para nós, assassinos de outras estirpes, a natureza assassina de nossos bons silvícolas. A natureza humana tem sido a mesma em toda parte. Lá e então. Como aqui agora. Somente a cultura apolínea é nossa frágil barreira capaz de deter, em parte, a sanha assassina do homem. Silvícola, primitivo, moderno, urbano, civilizado. Sempre em nome da uma honra, de uma glória, de um deus ou de uma mística imanente qualquer.  No selvagem brasileiro, predominam os valores morais, idealizados por influência europeia. 

Em “Leito de folhas verdes” e “Marabá”, apesar poemas indianistas, predominam o sofrimento amoroso, o lirismo e a delicadeza do sentimento feminino.

“Leito de folhas verdes” mostra a tristeza da jovem indígena que prepara o leito de noivado e espera em vão o amado:

 

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo

À voz do meu amor move teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

[...]

Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes

À voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil

A brisa da manhã sacuda as folhas!

 

“Marabá”, que significa “mestiça”, traduz os sentimentos da jovem índia que se vê rejeitada pelos guerreiros de sua tribo, por possuir traços europeus: pele clara, cabelos louros, olhos azuis. A índia se pergunta:

 

Eu vivo sozinha, ninguém me procura!

           Acaso feitura

           Não sou de Tupã?

Se algum dentre os homens de mim não se esconde:

 – “Tu és”, me responde,

  “Tu és Marabá!”.

 

Ao final, conforma-se a jovem:

 

Jamais um guerreiro da minha arasoia

Me desprenderá:

Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,

Que sou Marabá!

 

 

            Na poesia de Gonçalves Dias, são inúmeros os termos indígenas que ele utilizou. O piaga ou pajé era, ao mesmo tempo, o feiticeiro, o médico, o sacerdote, o adivinho. Em “O canto do piaga”, há uma espécie de premonição do que aconteceria com as tribos indígenas. Embora na primeira metade do século XIX, ainda houvesse um grande número de índios, seriam eles, aos poucos, exterminados pelos brancos. Gonçalves Dias já tinha esse conhecimento. É o que prevê o piaga em seu canto, alertando seus guerreiros:

 

Ó guerreiros da Taba sagrada

Ó guerreiros da Tribo Tupi

Falam Deuses nos cantos do Piaga

Ó guerreiros, meus cantos ouvi.

 

            Referindo-se àqueles que chegariam para escravizar e mesmo dizimar os índios, diz o velho Piaga:

 

Vem trazer-vos crueza, impiedade –

Dons cruéis do cruel Anhangá;

Vem quebrar-vos a maça valente,

Profanar Manitôs, Maracá.

 

Vem trazer-vos algemas pesadas,

Com que a tribo Tupi vai gemer;

Hão-de os velhos servirem de escravos

Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

 

            O mesmo tema é retomado em “Deprecação”: é a invocação a Tupã para que os proteja dos brancos:

 

Anhangá impiedoso nos trouxe de longe

Os homens que o raio manejam cruentos,

Que vivem sem pátria, que vagam sem tino

Trás do ouro correndo, voraces, sedentos.

 

            Das mais conhecidas e populares poesias indianistas é a “Canção do tamoio”, um hino ao valor humano. O velho guerreiro tamoio dá conselhos ao filho, valorizando sempre a coragem, a lealdade, instando-o a não fugir do combate, pois este só pode exaltar os bravos. No poema, predominam o ritmo, a melodia, a métrica, a redondilha menor ou versos de cinco sílabas, e as rimas. Tal estrutura métrica confere ao poema grande musicalidade.

 

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate,

Que os fracos abate,

Que os forte, os bravos,

Só pode exaltar.

[...]

As armas ensaia,

Penetra na vida:

Pesada ou querida,

Viver é lutar.

Se o duro combate

Os fracos abate,

Aos fortes, aos bravos,

Só pode exaltar.

 

 

A poesia lírica

 

A lírica de Gonçalves Dias expressa a harmonia entre o relato (conteúdo) e a construção do poema.

Introvertido, de origem humilde, o poeta maranhense manifesta as vacilações e as incongruências comuns às vicissitudes sentimentais, vencido pelos obstáculos que se interpolam, mergulhando na dor estendida da infelicidade.

Viveu em constante estado de irrealização amorosa, deixando seu Eu cair numa melancolia decorrente do desencanto existencial. Deixa transparecer em vários poemas a frustrada paixão pela jovem Ana Amélia. Compôs inúmeros poemas em que ressaltam o amor e o sentimento de  rejeição.

Em “Minha vida e meus amores”, o poeta expressa um projeto de vida:

 

Dá, meu Deus, que eu possa amar,

Dá que eu sinta uma paixão;

Torna-me virgem minha alma,

E virgem meu coração.

 

Conhecedor da natureza e homem de seu tempo, Gonçalves Dias sofreu a dor dos amores impossíveis, jamais processados em luto. Sua vida foi uma delongada despedida da mulher amada, postada como “deusa perenal” em seu imaginário. Isso deu ensejo e inspiração a que produzisse poesias/poemas de amor de alta qualidade.

O poeta maranhense tem como inspiração mais direta em sua poesia lírica os modelos portugueses que encontra sobretudo em Almeida Garrett – “Menina e moça”, “Sofrimento”, “Ainda uma vez – Adeus!”, “Se se morre de amor”. Em “Não me deixes”, estabelece uma interessante relação entre a mulher e a flor, personificando a natureza em decassílabos alternados com versos de seis sílabas, expressando sentimentos que conferem ao poema um tom popular.

 

Debruçada nas águas dum regato


A flor dizia em vão

À corrente, onde bela se mirava...

“Ai, não me deixes, não!

 

Comigo ficas ou leva-me contigo

Dos mares à amplidão;

Límpido ou turvo, te amarei constante;

Mas não me deixes, não!”.

 

Em “Olhos verdes”, além da influência camoniana, há uma inspiração medieval, tão cara aos românticos. Nesse poema, são claras as fontes populares que o poeta sempre cultivou. A descrição dos olhos verdes deixa transparecer o “eu lírico” em sua plenitude, a paixão e o sentimento de frustração, e, mais uma vez o poeta se utiliza da natureza como elemento de comparação da mulher amada:

 

São uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos de verde-mar,

[...]

 

Dizei vós: Triste do bardo!

Deixou-se de amor finar!

Viu uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos da cor do mar:

Eram verdes sem esp’rança,

Davam amor sem amar!

Dizei-o vós, meus amigos,

Que ai de mi!

Não pertenço mais à vida

Depois que os vi!

 

 

 A influência das cantigas medievais se mostra também em “O trovador”, mais precisamente da cantiga de amor, em que o poeta ou trovador conta a sua frustração amorosa:

 

Numa terra antigamente

Existia um Trovador

Na Lira sua inocente

Só cantava o amor.

 

Românticos são aqueles homens que se comprazem de, ao viver, dar de beber à dor. Como é bom o doer de velhas penas/decepções. Gonçalves Dias se manteve exilado do desfrute gozoso do amor anelado.

Um laivo, um ranço de melancolia tornou-se a tônica de sua poética, sempre roçando às fimbrias da vestimenta do amor tão identificado, tão disponível à mão, e tão cuidadosamente evitado, para manter a sede e a volúpia no âmbito do impossível e do fracasso.

Para o romântico Gonçalves Dias, o viver é um contínuo penar de dores, de culpas e de males docemente amortizáveis pelo imago da mulher amada, postada existente, mas interditada por acerba censura do próprio romântico.

Romântico, Gonçalves Dias colocou no amor todo anseio de realização pessoal, numa escansão de paixões defraudadas pela realidade.

O amor pela mulher desejada é para o poeta romântico tema para o dolorimento, a decepção.

O sensível poeta é alguém que pensa com o coração. Esse enlevo d’alma merencório comparece, belo e veraz, na “Espera!”.

 

Quem há no mundo que aflições não passe,

       Que dores não suporte?

Mais ou menos d’angústias cabe a todos

       A todos cabe a morte.

 

Não passam despercebidos ao poeta maranhense os problemas sociais da época, como a escravidão. É o que revela em “A escrava”:

Oh! Doce país de Congo,

Doces terras d’além-mar!

Oh! dias de sol formoso!

Oh! noites d’almo luar!

[...]

Sofreu tormentos, porque tinha um peito,

       Qu’inda sentia;

Mísera escrava! no sofrer cruento,

       Congo! dizia.

 

O Romantismo brasileiro assumiu um aspecto claramente político e social. Arte e sociedade se uniram, acompanhando o movimento de independência nacional, buscando as características próprias da terra e procurando afastar-se do reino português. Portugal representava a opressão, a exploração econômica e o conservadorismo. É verdade que os jovens burgueses iam instruir-se nas Faculdades de Coimbra e de Lisboa, mas ao voltarem ao Brasil, deixavam-se impregnar-se pelos ideais de independência e de democracia. Tais ideias transparecem nas obras românticas brasileiras. A fundação do Instituto Histórico e Geográfico, em 1838, e a publicação de obras de história assinalam o início de importantes atividades de valorização da temática nacional.

É, portanto, a partir do Romantismo, que se inicia uma literatura tipicamente brasileira, embora ainda apresente alguma influência lusa.   

O nacionalismo de Gonçalves Dias transparece em vários de seus poemas, seja ao tratar do índio, seja ao lembrar os escravos e os pobres, mas é com a “Canção do exílio” que o poeta mais se destaca. Poesia que abre os Primeiros cantos, “Canção do exílio” traz epígrafes de dois grandes românticos: o francês Chateaubriand e o alemão Goethe.

A mais conhecida poesia do romantismo brasileiro, e também, provavelmente, a mais acerbamente criticada pelos modernistas, é uma poesia que aparenta simplicidade de palavras, ausência de adjetivos, métrica regular e singela, como se pode observar:

 

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá:

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

[...]

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os prazeres

Que não encontro por cá;

Sem qu’inda aviste as palmeiras

Onde canta o Sabiá.

 

Quanto ao aspecto formal, o poema possui versos de sete sílabas, ou seja, em redondilha maior, métrica bastante empregada. Os versos são de grande musicalidade. O conteúdo traduz o sentimento da nacionalidade, ressaltando as palmeiras e o sabiá como alguns dos elementos caracterizadores da brasilidade. A oposição constante entre os advérbios “cá” e “lá” dão a dimensão da nostalgia e da distância do poeta de sua pátria querida. 

 Motivo de inspiração, ou, pode-se dizer de intertextualidade, ou ainda, de crítica para os modernistas, ávidos de se afastarem de todo o passado cultural, de tudo que tivesse alguma relação com a Europa, e o Romantismo brasileiro, apesar de despertar a nacionalidade, não deixou de se inspirar na Idade Média européia, a “Canção do exílio” vai ser “recriada” por vários poetas. É de Oswald de Andrade, um dos maiores nomes do movimento modernista, o poema seguinte:

 

Canto de regresso à pátria

 

Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos daqui

Não cantam como os de lá.

[...]

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte pra São Paulo

Sem que eu veja a rua 15

E o progresso de São Paulo.

 

 

            Pode-se dizer que “Sabiá”, de Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda, remete à “Canção do exílio”, pela temática, pela presença da sabiá, da palmeira, da repetição do advérbio “lá”.

 

Vou voltar, sei que ainda

Vou voltar para o meu lugar

Foi lá e é ainda lá

Que eu hei de ouvir cantar

Uma sabiá, cantar uma sabiá

Vou voltar, sei que ainda

Vou voltar

Vou deitar à sombra de uma palmeira

Que já não há

[...]

 

            Não se pode negar que foi com Gonçalves Dias que o índio brasileiro passou a ser admirado e exaltado. Mais tarde, o Modernismo o retomará como um dos seus temas, mas sob outra óptica, mais real, e não idealizada. É também Oswald de Andrade quem lança a pergunta, certamente se lembrando do Vocabulário tupi, de Gonçalves Dias: “Tupy or not tupy, that is the question”. Mário de Andrade lança Macunaíma, “o herói sem nenhum caráter”, obra em que mostra o choque das culturas branca e indígenas. Os movimentos artísticos e literários da atualidade também tomam o índio como inspiração. Veja-se a letra da música de Caetano Veloso:

 

Um índio

 

Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante

De uma estrela que virá numa velocidade estonteante

E pousará no coração do hemisfério sul na América num

/claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena

É o espírito dos pássaros das fontes de água límpida

Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas

/ tecnologias

Virá

[...]

 

Poeta complexo e abrangente, Gonçalves Dias cultivou todos os gêneros, do lírico, ao épico e ao dramático.  Não se pode, pois, deixar de mencionar que o poeta se dedicou também à prosa – “Meditação”, “Memórias de Agapito”, “Um anjo”. No teatro, destaca-se com as peças – “Patkull”, “Beatriz Cenci”, “Leonor de Mendonça” e “Boadbil”.

De tudo, o êxito, a sizigia, o bom encontro pleno é o supremo mal, a ser criteriosamente evitado. Foi sempre preciso sangrar e sofrer dores de amores frustrados, desviando e entornando, deslocados, afetos finos para a poesia. Nela, Gonçalves Dias, realizou-se, perene e marcante.  Há também algo incontestável no grande poeta maranhense: o seu indianismo tratado com originalidade peculiar.

Ondas e modismos vêm e perpassam por sobre ele, rocha basal, e Gonçalves Dias permanece e refulge como poeta maior do Brasil.

 

Referências

 

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 2ª ed. São Paulo: Ed. Cultrix, s/d.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Romantismo. 2ª ed. Vol. II Rio de Janeiro: Editorial Sul

Americana S. A., 1969.

DIAS, Antônio Gonçalves. Poesia e prosa completas. Volume único. Rio de Janeiro: Editora Nova

Aguilar S. A., 1998.

ECO, Umberto. Sobre a literatura. Ensaios. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.

PROENÇA FILHO, Domício. Estilos de época na literatura. 3ª ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Ed.

 Liceu, 1972.

  MARQUES, Oswaldino. Ensaios escolhidos. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A., 1968.

 

 

 

 Belo Horizonte, 10 de maio de 2012.

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